Ela lhe diz que sim, mas meneia a cabeça
A criança se diz inocente depois da brincadeira travessa
O texto parece concordar, mas era na verdade cinismo
O altruísmo parece bondade, mas continua egoísmo
Quem exalta demais as próprias qualidades nem precisa ter os defeitos subtraídos
A moral é puritana e recatada mas perdemos a conta de quantos são os maridos traídos
Você diz que imagem não é nada, pois o que conta é a Essência
E por isso vai às lojas e só compra roupas de excelência
Quem desdenha dos outros precisa de lupa para no espelho se enxergar
O trabalho glorifica, mas ninguém quer passar, lavar, servir, engraxar
Se é homem não pode haver choro
Aqui se faz, aqui se paga - em dobro!?
Pensamos uma coisa, dizemos outra, fazemos outra
Achar virtudes é como achar num chiqueiro uma ostra
Do berço ao túmulo nossas vidas hão de ser somente ninharias?
É preciso saber ler nas entrelinhas!
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27 maio 2011
04 maio 2011
Sobre todas as coisas
Interessam-me frascos e comprimidos,
capsaicinas, penicilinas,
Iluminismo, fracos e oprimidos,
fenóis, bemóis, lençois e as tuas almofadas.
Interessam-me o amor, a dor, a cor, a temperatura,
a forma, o gesto, o gozo, alegria
e além do mais textura, e além de tudo folia.
Interessam-me partituras, arranjos moleculares e poesia.
Interessam-me sensibilidade e mente e coração abertos,
também me alegram maravilhas de engenharia
e as almas livres, e os corações soberbos.
Juliano Dourado Santana
04 abril 2011
As mulheres de Chico Buarque
As mulheres de Chico Buarque (parte 1)
O gênio de Chico Buarque se expressa inúmeras vezes em poderosas figuras de pensamento e de linguagem e no manejo hábil com as palavras. Apenas ele é capaz de assentar na letra de uma melodia palavras como paralelepípedo (Vai Passar) ou saracoteando (Já passou) sem prejudicar a frase musical e enriquecendo o sentido do texto! Basta você comparar, na contramão, com pérolas de outros compositores famosos; do Nasi, por exemplo - aquele que parece o Wolverine, compositor do Ira – cujo trabalho o humorista Danilo Gentili resume maliciosamente assim: “Rima você com você, pronto aí, genial”. Aliás, clique no link: http://www.youtube.com/watch?v=VOCzrNh_ygg&feature=related e divirta-se um pouco.
28 março 2011
Anti-Foucault: ou O Fabuloso Gerador de Lero Lero¹
“Essa escura claridade a cair das estrelas...”, escrevia um dramaturgo francês no século XVI. E o leitor se espantará incrédulo: escura claridade? Talvez até pense como eu: o cara que escrever isso numa dissertação para vestibular está fudido! Essa figura de retórica, essa aliança de antinomias - essa loucura, eu diria - tem um nome específico e bem feio: Oxímoro. Minha opinião é a de que o nome é tão feio quanto o efeito que ele causa.
16 março 2011
De que maneira a pena de morte pode ser a favor dos Direitos Humanos.
É uma verdade reconhecida que nosso século tem posto as palavras nos lugares não habituais: “direitos humanos”, por exemplo, é uma expressão que arrebanha junto de si uma confusão de palavras (confusão maior, talvez, do que uma multidão aleatória de recortes de jornais espalhados sobre uma mesa). E confusão é eufemismo, para evitar dizer turbilhão, caos, bagunça ou arruaça.
24 novembro 2010
Novos apontamentos sobre a abolição da escravidão
Esqueça-se a visão senso-comum de que a boazinha princesa Isabel, num gesto piedoso, resolveu libertar os coitadinhos negros do julgo da escravidão, assinando a Lei Áurea. Pensem se isso poderia ser de alguma maneira coerente. Afinal, e quanto a todas as fugas de escravos e toda a movimentação abolicionista? Por que não os haveria libertado antes? Seria possível que, com tanta gente mobilizada em torno do assunto, a abolição fosse obra de uma só pessoa? Isto é, esta história tem outros personagens que desaparecem escondidos sob a sombra mitológica de Isabel: os próprios escravos, os seus senhores, ex-escravos, oficiais do exército, os emigrantes, o nordestino, etc.
18 novembro 2010
Até o século XIX, pretos não tinham alma: A escravidão de outrora Versus o racismo velado de agora
O sub-título é extravagante, eu sei. Veja-se como exemplo o Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, um dos maiores clássicos da literatura nacional e talvez mundial. Antes, advirto que não se trata de taxar o Machado de racista. O autor transcreve bem, em uma passagem literária, uma cena do cotidiano do Rio de Janeiro no início do século XIX. Ora: o livro é de 1881, e a retratar o início daquele século; os negros, por sua vez, só seriam libertos pela Lei Áurea em 1888.
04 outubro 2010
Poetas
Os poetas são as pessoas que padecem algum mal do coração
O mais provável é que lhes tenham pisado e humilhado
Depois abandonado ao diabo.
Ou isso, ou nada lhes explica o ressentimento elevado
Para com as coisas desse mundo:
Pois mesmo que ele seja imundo, ou abandonado
Mentem os poetas “como ele é bonito”
E metem logo a dizer bobagens de demente apaixonado
E parvoíces de magoado.
Mesmo para o poeta que não o disse:
Há um artífice perfumado
De finos gestos delicados
Para quem todos os versos são enfim dedicados
- Mulher!
O mais provável é que lhes tenham pisado e humilhado
Depois abandonado ao diabo.
Ou isso, ou nada lhes explica o ressentimento elevado
Para com as coisas desse mundo:
Pois mesmo que ele seja imundo, ou abandonado
Mentem os poetas “como ele é bonito”
E metem logo a dizer bobagens de demente apaixonado
E parvoíces de magoado.
Mesmo para o poeta que não o disse:
Há um artífice perfumado
De finos gestos delicados
Para quem todos os versos são enfim dedicados
- Mulher!
Juliano Dourado Santana
29 setembro 2010
Os trabalhadores
Uma inovação no maquinário, precisamente a invenção da máquina a vapor e das máquinas destinadas a processar o algodão, foi o que desencadeou uma sucessão de transformações profundas, a Revolução Industrial; foi também quando se iniciou a história da classe operária na pioneira Inglaterra. É isso, o proletariado moderno nasce com a revolução das máquinas, como seu produto imediato.
28 maio 2010
Money
As relações mundiais são em maior parte relações de trocas, com uma mercadoria especial que se troca virtualmente por todas as outras: dinheiro. Mas de onde vem o dinheiro? Ele não pode simplesmente surgir do nada. Mas é quase isto. Dinheiro é uma nota de valor comercial, já que pode ser trocado por quaisquer produtos, criado para contrabalançar um débito contraído. Ou seja, os dinheiros são criados do nada, vamos dizer assim, falsamente. A criação de dinheiro significa mais ou menos empréstimos sobre títulos, como garantia. Cada nota que circula significa débito. Se ninguém tivesse débitos, se todos pagassem todas as suas dívidas, inclusive os governos, não haveria uma só nota circulando.
10 abril 2010
O diabo que ri
Nós, os seres humanos - ou os macacos nus, na expressão do zóologo Desmond Morris - temos as faces mais expressivas de todo o reino animal (num outro extremo, estão criaturas como o crocodilo). Propriamente dito, somos os únicos seres que riem. Outros macacos e símios conseguem arregaçar os lábios para trás ou para frente, mas normalmente numa atitude agressiva que não se pode comparar em igualdade à profusão de sentidos que tem o riso da nossa espécie. Por outro lado, o que significa o riso humano? É agressivo, sarcástico, escarnecedor, amigável, sardônico, angélico, toma as formas da ironia, do humor, do burlesco, do grotesco - em que extremo se encaixará cada riso? Afinal, o riso pode significar tanto a alegria pura quanto o triunfo maldoso; a simpatia como o escárnio zombeteiro.
29 março 2010
Sob nova direção!
Ufa! Que sufoco! O confraria andou como um barco abandonado, depois que o Raviere despediu-se - e nem foi embora!
As coisas se ajustarão de outra forma. O outro co-fundador, que atende pela alcunha de Mofino, nenhum dedo movimentou nem respondeu aos contatos, enquanto o Confraria de Tolos permanecia com a aparência de um barco fantasma. Eu, cheio de cólera e irado, provoquei um Golpe de Estado.
23 dezembro 2009
Artístico - Parte Final
Parte 3: Arte e sedução na modernidade
A arte (e a sedução) evoluíram ao mesmo tempo como um indicador de aptidão e um meio de obtenção de vantagens reprodutivas, através da influência indireta do status. (E isto não será difícil de compreender se observarmos a atração que os artistas exercem sobre os fãs).
20 dezembro 2009
Artístico - Parte 02
Parte 2: As nossas caudas de pavão
A seleção natural somente pode favorecer comportamentos que promovem a sobrevivência, e nisto a arte parece completamente inútil. A arte custa demasiado tempo e energia e, em retorno, oferece muito pouco. Contudo, este embaraço está por desfazer-se aos poucos. O psicólogo evolutivo Geoffrey Miller (2000), reavaliando a teoria de seleção sexual de Darwin (um complemento poderoso à sua teoria da seleção natural), propõe que a arte obedece sim a um princípio evolutivo: não ao princípio de sobrevivência, mas ao de reprodução.
17 dezembro 2009
Artístico - Parte 01
Parte 1: Mozart Versus O homem da pintura rupestre
Avaliar as coisas de uma perspectiva histórica é sempre difícil – embora nós os historiadores objetem que útil e gratificante. Difícil, porque o passado é uma coisa que não está mais lá à mostra, e difícil também porque o passado não é igual ao presente, simplesmente.
Eu quero colocar a idéia de “artístico” (representação criativa do mundo) na esteira do tempo, fazer-lhe uma resumida crítica histórica. Bem, a “arte” muda no tempo, através das gerações e civilizações – até desembocar nalgum ponto onde não saberemos mais dizer se há ali cultura. Um ponto onde o humano deixa de ser humano. Para fins didáticos, vamos pôr as coisas em síntese numa escala cronológica:
24 novembro 2009
Lições de Amor e Sexo
Não acredite que os homens são iguais. Nenhum deles presta, mas cada um à sua maneira.
A mulher do vizinho só é melhor do que a sua enquanto ela é a do vizinho. Experimente torná-la sua e você verá doce tornar-se amargo.
Se você acha que ela não te trai, é porque ela trai. Com certeza.
Se você acha que ela está te traindo, você se enganou.
Mulheres não deixam pistas, além de serem todas atrizes. Ela vai trair sem que você note. Atenção. Se notar, é um traveco!
Se você acha que ele não está te traindo, ele está.
Se você acha que ele está mesmo te traindo, é porque ele está mesmo! Homens traem, não adianta refutar, é da natureza humana.
Todos os homens se esforçam para parecerem ser o melhor possível enquanto tentam conquistar determinada mulher. Se ele a fisgar, distrai todo o esforço no sentido de conquistar outra.
O amor é um jogo: se muito fácil, é entediante; se muito difícil, o abandonamos. À mulher é preciso saber lidar com essa situação e aprender a adestrar bem o seu homem.
Mentir ajuda as pessoas a se relacionarem; descobrir as mentiras arruína tudo. Assim, ou não minta nunca ou jamais permita que as mentiras sejam descobertas.
Arrume uma namorada. Homens sem namorada se comportam como gatos domésticos: putões irresponsáveis que vão a qualquer canto da cidade atrás de diversão sexual.
A mulher diz que não conhece nada como o amor; o homem diz que não conhece nada como o sexo. Mas é só o que ambos dizem.
Se ele te troca para ir jogar bola, não pense que ele não te ama. Todos os homens são assim. Se não, desconfie: não é verdadeiramente homem.
Comer uma puta não é a mesma coisa que fazê-lo com uma namorada: em um dos casos você não usa a camisinha.
Sexo com amor: é bom. Amor sem sexo deve ser um tipo inferior de amizade. Sem sexo é de todo modo ruim! Sem amor, triste.
Se ele não olha para as outras mulheres quando anda com você na rua, cuidado. A única explicação provável é que ele faz muito pior quando você não está com ele.
O amor sempre acaba bem. Quer dizer, sempre acaba.
Juliano Dourado Santana
A mulher do vizinho só é melhor do que a sua enquanto ela é a do vizinho. Experimente torná-la sua e você verá doce tornar-se amargo.
Se você acha que ela não te trai, é porque ela trai. Com certeza.
Se você acha que ela está te traindo, você se enganou.
Mulheres não deixam pistas, além de serem todas atrizes. Ela vai trair sem que você note. Atenção. Se notar, é um traveco!
Se você acha que ele não está te traindo, ele está.
Se você acha que ele está mesmo te traindo, é porque ele está mesmo! Homens traem, não adianta refutar, é da natureza humana.
Todos os homens se esforçam para parecerem ser o melhor possível enquanto tentam conquistar determinada mulher. Se ele a fisgar, distrai todo o esforço no sentido de conquistar outra.
O amor é um jogo: se muito fácil, é entediante; se muito difícil, o abandonamos. À mulher é preciso saber lidar com essa situação e aprender a adestrar bem o seu homem.
Mentir ajuda as pessoas a se relacionarem; descobrir as mentiras arruína tudo. Assim, ou não minta nunca ou jamais permita que as mentiras sejam descobertas.
Arrume uma namorada. Homens sem namorada se comportam como gatos domésticos: putões irresponsáveis que vão a qualquer canto da cidade atrás de diversão sexual.
A mulher diz que não conhece nada como o amor; o homem diz que não conhece nada como o sexo. Mas é só o que ambos dizem.
Se ele te troca para ir jogar bola, não pense que ele não te ama. Todos os homens são assim. Se não, desconfie: não é verdadeiramente homem.
Comer uma puta não é a mesma coisa que fazê-lo com uma namorada: em um dos casos você não usa a camisinha.
Sexo com amor: é bom. Amor sem sexo deve ser um tipo inferior de amizade. Sem sexo é de todo modo ruim! Sem amor, triste.
Se ele não olha para as outras mulheres quando anda com você na rua, cuidado. A única explicação provável é que ele faz muito pior quando você não está com ele.
O amor sempre acaba bem. Quer dizer, sempre acaba.
Juliano Dourado Santana
09 novembro 2009
A Vida Não Está Lá
“É meio kafkiano esse desenho, né Julião?”, perguntou-me Paulo. E eu gastei um tempo pensando. Definitivamente, “meio” é ainda pouco, tenho de admitir. (Agora eu estou me divertindo, pois estou imaginando quais os desenhos poderão ter passado pela cabeça de vocês. Mas isso não é nenhuma brincadeira de advinha-o-quê, então vamos logo adiante).
29 setembro 2009
Campo Santo: O Retorno
Fizemos uma visita ao cemitério. Eu me senti dentro do meu texto¹, mais uma vez. Chegamos (eu, Paulo e a mãe dele) em salvador no sábado. Ficamos em casa naquele dia. E Tia Nailce: "Ah, Paulo! Tá muito chato. Eu quero caminhar, passear, sair!" Paulo tentou remediar, levou-a pra caminhar no outro dia.
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E Tia Nailce: "Ah, Paulo! Você quer me matar? A gente caminhou como de Canarana para Irecê".
Paulo: "Mas não era o que você queria?"
Tia Nailce: "Não, eu quero visitar lugares interessantes, não é só ficar caminhando sem rumo e tudo bem. Você só me fez subir e descer ladeiras infinitas".
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11 setembro 2009
O Século do Nada
Século acaba, entra outro. As pessoas sempre depositam expectativas num novo século, ficam mirando nele suas mitologias. O século XIX mal começava a balançar um lenço branco em gesto de adeus, já as pessoas como que festejavam: uma era de esperanças parecia se abrir incólume e triunfalmente, atestando o poder do homem. Parecia que esta espécie de macacos nus estava destinada a sucessos. Éramos Humanos, e arrotavam isso como quem declara a posição mais confortável do Universo.
15 agosto 2009
Carro à frente dos bois e outros atropelos
Quem nunca ouviu estas frases? “Em terra de cego, quem tem um olho é rei”. “Antes tarde do que nunca”. “Tudo tem uma primeira vez”. “Ele estava à frente do seu tempo”. “Deus escreve certo por linhas tortas”. “Uma imagem vale mais do que mil palavras”. “Um grama de exemplo vale mais do que um quilograma de palavras”. Os exemplos poderiam ficar se repetindo ad infinitum, mas eu não pretendo aborrecer o meu leitor.
Ditados populares, ou chistes e truísmos, são frases de efeito poderoso. Elas pretendem resolver a questão, qual seja ela, com uma saída que é uma mistura de sabedoria, gracejo e senso comum - e sempre com aquela expressão de “encerrou-se o assunto”. Podem cair como uma luva numa discussão e resumir o sentido de uma conversa. Mas nem sempre é assim. Elas são armadilhas fáceis. Eu vou desenvolver um ou outro exemplo, para elucidar o absurdo.
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