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05 maio 2011

O Mundo em Polvorosa

Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça
Dando milho aos pombos.
Zé Geraldo, Milho aos Pombos.

Os homens se reúnem em multidões, com ardente entusiasmo, para assistir a uma tragédia: havendo uma execução na rua vizinha, como observa o Sr. Burke, o teatro estaria vazio.
William Hazlitt, Do Prazer de Odiar.

No dia 11 de setembro de 2008, me lembro de mais de uma enquete, feita por um ou outro portal de notícias, que perguntava o que os leitores estavam fazendo no exato momento dos ataques em 2001. Uma ou outra pessoa abria presentes de aniversário, mas a maioria simplesmente viu pela TV. Uma moça contou uma história impressionante de como chegou lá na manhã dos ataques – sua primeira vez em NY –, e ficou hospedada na casa de amigos, a quatro quadras do WTC.
Eu estava em Irecê. Era dia de prova de história e geografia (que eu sempre terminava cedo). Por isso, já estava em casa, jogando Olimpic Gold, por um emulador do Mega Drive, com Hugo Doido, quando minha mãe, que possui uma veia épica (veja aqui), entra em meu quarto, desesperada: “Liga a TV! Estão explodindo tudo lá fora! O mundo vai acabar!”. Eu não dei muita atenção a seus exageros, e por isso não vi ao vivo o segundo ataque.
Abalou-me muito mais quando vi o filme sobre o terrorismo poético de Phillippe Petit, que atravessou as torres numa corda bamba. Também me abalou mais, admito, a morte de Bin Laden, que soube pelo portalzinho de notícias que abre automaticamente quando conectamos no MSN. Claro, pois agora, além de mais velho e (supostamente, apenas supostamente) mais maduro, estava contextualizado com a notícia. Esta foi a mesma maneira que eu soube da chacina de Realengo. Sim, soube por uma notícia em inglês! Por mais que tente manter equilibrados os meus arroubos de nacionalismo – pois seus extremos podem gerar xenofobias e tragédias piores –, não há como ignorar o nome do seu país, num portal onde normalmente só há notícias que não me importam e dicas para adolescentes. Em épocas do lançamento da animação Rio, pensei: “legal, tão falando do Brasil!”. No mesmo momento percebi meu engano. As coberturas nos telejornais foram longas. Creio que as últimas que eu tinha visto assim foram a visita de Obama e os ataques aos morros dos traficantes (sempre o Rio de Janeiro!).
            Mas eis que, apenas algumas semanas depois de Realengo, vejo outra cobertura longa: o mundo só fala no casamento inglês. Foi lindo, até o ranzinza clima londrino resolveu contribuir. Obama não foi. Visitava as vítimas dos furacões que destruíam o seu país. Mas dois dias depois, ele rouba a cena dos ingleses e anuncia a morte de Bin Laden (ironicamente, a expressão em inglês para “roubar a cena” é rain on [nome próprio]’s parade, choveu no desfile dos ingleses). E o que sucede? Coberturas longas (quem mais se lembra de tsunamis e furacões?). Além disso, ninguém sabe, mas, entre os dois dias, morreu o grande escritor Ernesto Sabato. Não chamou tanta atenção do mundo quanto Saramago, mesmo tendo este morrido na época da copa (minha mãe chorou por ele e por Salinger, mas duvido que o tenha feito por Sabato). E as notícias continuam e continuam, mas eu não dou conta de acompanhar (penso nos absurdos extraordinários que ainda verei pelos MSNs e portais da vida: “Invasão alienígena!”, “Jesus voltou, e tem olhos charmosos!”, “O Bahia foi campeão!”).
A sensação que me dá com tudo isso é o inverso da que nos alerta o profetinha em O Bandido da Luz Vermelha, de que “o terceiro mundo vai explodir”. Parece que o mundo inteiro vai explodir, mas nós permaneceremos intactos, pois estamos muito à margem (só explode o Rio de Janeiro). E veja, nem posso alegar que estou num deserto de tédio, pois tive um final de semana cheio (que minhas professoras não saibam, pois lhes devo resenhas): além de ver notícias e correr da chuva, fui num show de rock, numa ópera e numa orquestra, vasculhei a sessão de literatura e de biografias do Brandão e do sebinho da esquina de lá, li umas 100 páginas de Lolita e mais um sem número de textos esparsos, escrevi mais umas 12 de prosa (sem contar esse texto, que veio depois) e a letra para uma canção, me preparei pra uma prova e um seminário, vi dois jogos de futebol e um de futsal, vi pessoas, tomei umas, e, ainda por cima, preparei todas as minhas refeições, dei faxina no apartamento e lavei minhas cuecas.
Mas ainda assim, tudo isso só importa pra mim, e não basta. É preciso ser mais que uma daquelas pálidas existências de que nos falam o biógrafo da Senhora Bovary e os filmes escritos por Kaufman. Claro, não são todos que têm a ventura de casar com pompas reais, de escrever uma obra grandiosa ou de poder anunciar que mandou dar uns tiros na cabeça de seu inimigo número um. Mas os que estão por perto ao menos poderão dizer que estiveram lá. Como o sujeito que nasceu há dez mil anos atrás, com a pele muito bronzeada e com olhos azulados pela catarata, poderão dizer: “mas eu vi, reles mortal, eu vi!” (já eu, não vejo nada: exatamente no dia de minha aula [de dois na semana!], um ônibus explode a poucos passos de onde moro, e eu não estou lá).
A verdade é que esta sensação só me é possível por causa destas coberturas de telejornais, que fazem com que Londres e NY pareçam estar muito mais perto do que são. Imagino dois turistas (não viajantes) conversando, num futuro não sei se próximo ou distante. “Eu estava no Egito em 2011”. “E aí, tomou umas pauladas, pelo menos?”. “Não tive tanta sorte, mas ao menos estava lá”. A diferença entre o turista e o viajante se mede em quantos centímetros cada um esteve de tomar estas pauladas.
Machado de Assis diz que “o mundo era estreito para Alexandre, e um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas”. Pois é. Nem sempre me senti assim. Irecê era enorme, e enquanto eu crescia, ela ia diminuindo, até que e eu vim para Salvador, que já diminuiu demais com o tempo. Para além da emigração em busca de oportunidades ou de melhores condições de vida, esta sensação de não-pertencimento explica a leva de auto-exilados (penso em Wim Wenders, Bob Dylan e Sebald), que às vezes largam mão de certo conforto, para ver in loco o que está acontecendo no mundo. Piza disse esses dias que “pensar enquanto se movimenta é a alma da grandeza”. Não imagino um índio, cujo mundo sempre foi sua tribo, com estes desejos de exploração, quando nem sabem o que há além. Só se pode querer ir Marte depois do conhecimento de que ele existe e que é possível de ser alcançado (como a caverna de Platão).
Para fazer um resumo de tudo, usando o exemplo de quem saiu daqui da Bahia, todos torcemos (o velho nacionalismo) para que Daniel Alves tivesse feito o gol da classificação do Barça. Imagino que ele pudesse ter desejado o mesmo, mas importa mais o fato de estar lá e vencer. Enquanto isso, o mundo pipocando lá longe, e as coberturas jornalísticas vendo tudo de camarote, tentando se aproximar o máximo possível, apenas para que esqueçamos na próxima semana, pois temos cuecas para lavar.

Paulo Raviere

01 abril 2011

Os cem de Ceni

Essa semana começou muito bem para mim. Finalmente arrumei um apartamento, terminei um texto longo, conheci umas pessoas legais e ainda por cima, teve aquele jogo de domingo.

Pra quem não está muito ligado em futebol (o que eu não creio muito, mas também não duvido), neste domingo, o goleiro e capitão do São Paulo Futebol Clube, Rogério Ceni, fez o centésimo gol de sua carreira. Isso tudo se torna ainda mais interessante por ter sido contra o rival Corinthians, que não perdia para o São Paulo faz alguns anos, tendo resistido mesmo à vitoriosa equipe de 2007, que atropelou quase todos os times do campeonato brasileiro. O time veio a rebaixar em tal campeonato. 

01 dezembro 2010

Scott Pilgrim vai ao banheiro

“Somos todos adultos aqui, certo?”
                                   Scott Pilgrim (Michael Cera) em Scott Pilgrim contra o Mundo.

Zeitgeist, termo alemão, se refere ao espírito de um tempo ou época, o que é sempre difícil de demonstrar. Phillip Larkin, em seu poema Annus Miriabilis, sobre o ano de 1963, menciona Lady Chatterley e o primeiro álbum dos Beatles. Mas podemos também falar da década de 60 como um todo, e aí não poderia faltar Dylan, Kennedy, Crumb, Luther King, a guerra do Vietnã, as manifestações de 68, os beatniks, a guerra fria, a nouvelle vague, a contracultura, entre tantas outras coisas. Assim, o espírito desta época está representado por ícones, obras representativas e grandes eventos. Se referindo ao Brasil, falamos também da jovem guarda, de Chico Buarque, de Pelé, da bossa e do cinema novo, da ditadura.

O tempo não está dissociado do espaço. Por isso, quando falo de minha geração, não posso falar da época como um todo, mas de tendências. O geek que inventa uma maneira de viabilizar a transmissão de vídeos ao mundo inteiro certamente é mais influente que o roceiro de mesma idade que só quer saber de roubar goiaba. Ambos compartilham a mesma época e o mesmo planeta, mas um fez mais diferença. Não podemos culpar o roceiro. Mudar o mundo nem sempre é uma obrigação.

De qualquer forma, é mais fácil falar do passado quando ele já é velho; talvez esquecido, ultrapassado ou consolidado. O tempo perdido de Marcel Proust. Quando algo ainda é novo, ou ainda está acontecendo, as opiniões divergem. As interpretações são variadas. Já vi muitos nomes pra minha geração: Millennials, geração Y, MTV, “pós-tudo”, mas ainda me reservo a não chamá-la por nome nenhum. Considero-a um grupo composto por pessoas que passaram, principalmente em cidades, sua infância e adolescência entre o final dos anos oitenta e o começo deste milênio. Historicamente, poderia dizer que começou com a queda do muro de Berlim e vai até o 11 de setembro. Mais ou menos. Minha geração não tem certeza de nada. Esses simplesmente são fatos marcantes que podem definir este entreato. Poderia ainda dizer que ela aconteceu entre os videogames de 8-bits e o Playstation.  

A grande batalha, para nós, crianças, era entre Sega e Nintendo; aos um pouco mais velhos, Guns ‘n Roses e Nirvana. Sendo herdeiros de revoluções anteriores, divórcios, televisores e videocassetes em casa, mulheres trabalhando, falar desavergonhadamente de sexo, clipes nonsense não eram coisas estranhas. A narrativa fragmentada de Tarantino já era acessível e comerciável. Nossa base informativa era audiovisual. Eu praticamente aprendi a ler com revistas sobre jogos de videogames (muitos dos quais eu só vim ter acesso depois da internet, com os emuladores). Uma vez, num seminário sobre games, vi que as pessoas suspiravam diante de imagens de jogos como Street Fighter e Monkey Island. Falavam da importância e influência deles como meus professores eruditos falavam de Borges e Cervantes.

Disso tudo começam os problemas. Nós crescemos. Crescemos trancados em casa jogando videogame, agora estamos perdidos. Hoje, possuímos a informação que um velho juntava em vida e a mesma maturidade adolescente. Como se uma coisa compensasse a outra. Não experimentamos como as gerações anteriores. Não fomos à guerra, não enfrentamos milicos, não fomos exilados, não nos escondemos de ninguém, não velamos nossos pensamentos por pressão ou “respeito” a autoridades. Em compensação, eles também não experimentaram como a nossa. Derrotamos Robotnik e salvamos a princesa Peach várias vezes, ganhamos sozinhos campeonatos de basquete, luta, futebol, fórmula 1, várias medalhas de ouro nas olimpíadas, vencemos guerras mágicas, militares, divinas, estelares, e livramos o mundo do tentáculo do mal. Nossa humana necessidade de mitos foi saciada pelos games, onde nós mesmos encarnamos nossos heróis. Enquanto isso, nossos irmãos mais velhos ouviam punk rock na sala de jantar, com os pais, fumando e bebendo despudoradamente, enquanto os ensinavam a usar o Windows 95.

Por isso mesmo, imaginava que um possível revival dos anos 90 seria realizado silenciosamente. Cada um sozinho em seu quarto jogando Mortal Kombat ou Zelda por um computador, ouvindo Blur, Oasis e Mamonas Assassinas. A televisão ligada na MTV para lembrar os velhos tempos em que éramos escravos do horário e do conteúdo televisivo.

Mas me enganei. Parece que crescemos mesmo. E trouxemos nossa experiência conosco. Os nerds são fofinhos, as meninas jogam videogame, ler quadrinhos é cool, ouvimos rock em qualquer lugar. Ainda assim, somos obrigados a fazer qualquer coisa. Nossos pais não nos toleram mais sem fazer nada da vida. Agora, nós produzimos as histórias que gostaríamos de ouvir. Os autores e as obras representativas de minha geração começam a aparecer: Superbad, MSP 50, Daniel Galera, Minusbaby, The Big Bang Theory, Maspoxavida, Apenas o Fim e aquele que, finalmente, me parece ser o grande passo inaugural no revival dos anos 90: Scott Pilgrim.

Surgido primeiramente como uma divertida HQ de Brian Lee O’Malley, Scott Pilgrim é pop até a veia. O nome vem de uma música de banda indie, o desenho é uma mistura de mangá com quadrinho underground, o texto abusa de referências a games, músicas, filmes, outras HQs, propagandas, clipes e o diabo. O filme não usa tantas referências, mesmo porque a mídia não permite (são umas 1000 páginas de quadrinhos!). Em compensação, dialoga melhor com elas. Por se tratar, em sua maioria, de referências audiovisuais, elas ficam melhor na tela.

Não há muito que dizer do enredo: precisa ser visto ou lido. Scott, de 23 anos, arruma uma namorada do colegial e a trai com Ramona Flowers (linda, do cabelo colorido!), por quem se apaixona. Mas para ficar com a moça, ele precisa derrotar seus sete “ex do mal”, como os chefões de jogos 16-bit. Mas Scott é bem aluado. Quando se vê num dilema, sua solução é divagar coisas sem sentido, até chegar à conclusão de que o certo é ir ao banheiro e evitar o conflito. Ou lutar, quando alguém o manda fazer. Comportamento típico adolescente. No mais, só vendo (a trilha do filme é o que há).

Fico feliz em pressentir minha geração como centro de um novo revival. Não agüentava mais o dos anos 80. Esta geração que veio após a minha, a geração playground, a que cresceu falando inglês e que teve acesso a tudo, a da banda larga, música de computador e dos games ultra-realistas, a dos vegetarianos sexualmente indecisos, que está bem representada por Kick-ass, talvez ela torça o nariz para a breguice dos anos 90, assim como eu detesto quase tudo dos 80; mas não deixo de pensar, com um sorriso descarado, que eles estarão um tanto mais perdidos que nós quando chegar sua vez.

Paulo Raviere.

12 outubro 2010

Vendaval

Um brevíssimo comentário num ensaio do alemão Joachim Kalka me chamou bastante a atenção. Em Dinheiro na Mão, publicado na revista Serrote, ele discorre sobre os modos de ver o dinheiro, entre outras coisas. O que era entidade física passa a entidade subjetiva. O dinheiro era algo deslumbrante, para se pegar e admirar, para se esconder dos ladrões. Os exemplos usados por Kalka dão conta de demonstrar isso: a sagrada Número Um do Tio Patinhas, o dinheiro amaldiçoado por Léon Bloy, o Zahir de Borges, e as moedas famosas da história e da literatura: as 30 de Judas, o dobrão de Ahab, a que condenou Luis XVI, durante a Revolução Francesa, por conter sua efígie.

27 agosto 2010

Poderia ser pior

Que os mortos ressuscitem ou o Passado volte a ser Presente.
Samuel Johnson, Da tristeza

Por que não nasci eu um simples vaga-lume?
Machado de Assis, Círculo Vicioso.

Acontece com todos. De vez em quando, por belo que esteja o dia, isto não afeta a rigidez de nosso mau humor. Às vezes é pior; é triste. Assim somos. Toda pequena sonata de felicidade carrega uma nota de tristeza, ainda que abafada pelo resto da orquestra. E eu não posso ficar triste. Quando fico, penso em coisas estranhas. Perco a vontade de encher a cara, em acordar cedo para correr, e ainda em fazer exercícios durante o dia; penso em fazer a barba, o futebol não tem tanta importância, os filmes da tarde na TV parecem interessantes e uma salada de legumes parece um prato saboroso. Terrível demais para que dure muito tempo.

29 janeiro 2010

Uma lágrima para um velho rabugento

Eu gosto dos rabugentos. Tenho até textos inéditos falando disso. Realmente me sinto bem quando me deparo com um. Há algo mais engraçado que o rabugento que, além de reclamar da própria miséria, ainda tenta humilhar alguém ao mesmo tempo? Lembro-me de ter rido horrores com um velhinho perneta que morava no mesmo prédio que eu e que tirava os dias para, do terraço, sentado numa cadeira de rodas, olhar o movimento na rua e ler o jornal. Não há como não se compadecer de um velhinho perneta; e foi nessas condições que um sujeito, um miserável com cabelinho de Beckham, com um sorrisão idiota, começou a cantar em seu ouvido musiquinhas sobre a beleza da vida e similares. O rabugento, com estilo, desferiu-lhe um tapa com as costas da mão e, como se o desprezo pelo sujeitinho fosse tão grande que ele fosse indigno mesmo daquelas três palavras, gritou com a voz grossa e lenta: “deixa eu fumar!” Foi quando eu me compadeci do perneta.

Mas eu falo isso tudo apenas para ilustrar que meus rabugentos favoritos são os velhos, ficcionais ou não. Todos têm seus momentos de rabugice, mas o privilégio de realmente ser rabugento é algo que se conquista com esforço, com erro e repetição, com uma vida inteira de cansaço, e é valoroso admirar um mestre no ápice de sua arte. Os exemplos famosos são fartos: Woody Allen, Harvey Pekar, Crumb, o velhinho de Up, o Sr. Kowalski, de Gran Torino, e o próprio Clint tem algo assim, João Gilberto, Salomão, Alan Moore e, um caso particular, Jerome David Salinger.

O personagem principal de Salinger, Holden Caulfield, protagonista d’O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye), é um jovem verdadeiramente rabugento. Reclama do assobio de um, se irrita com um colega perguntador, e quando algo lhe agrada, ele sempre o afirma com um tom de reclamação. Salinger não fica atrás. Publicou sua obra prima em 1951, e pouca coisa depois, até finalmente parar de publicar em 1965, sem maiores explicações.

Em relação à obra, Salinger nunca permitiu que adaptassem suas obras para o cinema, não aceitava desenhos na capa de seus livros, muito menos qualquer texto na orelha, as traduções dos títulos em edições estrangeiras são sempre, obrigatoriamente, ao pé da letra, além de mais um infinito de condições. Em sua vida particular, se retraiu numa casa em New Jersey, e não permitia que tirassem fotos, não recebia visitas, nem dava entrevistas, como todo bom rabugento.

Mas parece que não sou o único a gostar dos rabugentos. O Apanhador é um dos ícones do século XX; alguns, ainda que exageradamente, alegam até que o rock e a rebeldia adolescente começaram ali. Enquanto isso, Salinger, para a sua desgraça, foi seguido por uma legião de fãs, de stalkers aos imitadores de sua literatura, em grande parte adolescentes aspirantes a escritor, por causa de Caufield. É com aquele pesar indiferente que sempre reservamos aos famosos que nos agradam, que eu soube ontem que o velho desagradável tinha morrido, aos 91 anos.

Dizem que escrevia continuamente, apesar de não publicar. Com sua morte, seus textos inéditos devem vir à tona. Isso torna o caso de Salinger raro na história, pois apesar da tristeza com sua morte, os seus verdadeiros fãs, órfãos de sua obra após seu auto-decreto de silêncio, os fãs que leram tudo publicado por ele, ao tempo que choram, se contorcem de alegria; Salinger morreu e, de acordo com os boatos e para a felicidade geral dos herdeiros, livros inéditos virão. O velho rabugento não se importa mais.

Paulo Raviere

14 janeiro 2010

Uma Confraria de Tolos (o livro)

Esta era pra ser uma das primeiras postagens, pois é justamente sobre o livro que batizou o blog. Não escrevi antes por causa da ânsia de outros afazeres. Na verdade, eu tinha planejado fazer uma série sobre grandes obras desconhecidas, como os livros de Schwob e de Baricco, ou O Terceiro Tira, mas as pesquisas de opinião contra-indicaram isto. Bem, para a alegria de todos que me perguntam de onde vem o nome do blog, ou dos leitores perdidos que deságuam por aqui, procurando um norte sobre o livro, falemos de John Kennedy Toole.

08 janeiro 2010

It's Alive!

Galera, estivemos ausentes por uns bons dias, porque, apesar de todo nosso discurso anti-tudo, bla bla bla, não pudemos permanecer alheios às comemorações do aniversário do Ungido e de mais um ano (alguns insistem numa nova década). Não que todos os tolos realmente se importam com todas essas coisas, mas como torcer o nariz pra tanta farra, tanta comida, cachaça, futebol, e tudo mais, (hehehe)? O melhor que eu posso fazer é desejar que 2010 seja ao menos tão bom quanto o ano da Coruja, esse que acabou agora, e que pra quem não teve um ano tão bom assim, que ele seja um ano melhor.

Estamos de volta na ativa, como antes, e agora com novidades. Aguardem.

E pras mocinhas graciosas, um beijo.


Paulo Raviere.




03 dezembro 2009

Mais uma vez:por que ler?

Ontem teve o lançamento de dois livros com textos meus. Um com um artigo sobre a linguística e outro uma crônica sobre a leitura que eu tinha feito para a faculdade. Segue abaixo esta crônica. Aproveito a deixa para indicar este blog.

Por que ler? Ítalo Calvino simplesmente diz que é melhor ler do que não ler. É uma resposta que convence pela sua simplicidade. Mas o caso é que a pergunta continua a ser feita: por que ler? O fato de tal pergunta existir me soa estranho. Não pela pergunta em si, mas porque muitas pessoas a fazem sem se perguntar de outras coisas que, analisadas mais calmamente, não fazem tanto sentido. Por que usar gravatas? Por que tanta pressa? Por que sorrir? Por que ouvir música? Por que andar de bicicleta? Por que trabalhar tanto e produzir tão pouco? Por que viver, ora bolas?

21 novembro 2009

A sombra do que não se vê

Os doutores nos encarceram numa natureza humana. Virtuosos, pervertidos, altruístas e interesseiros se acotovelam sob os grilhões de nosso ego imutável. Somos criaturas submissas, diz-nos os artífices do espírito humano. Talvez sejamos. Mas não careço de me perder nas miudezas ilusórias de proteínas e neurônios, nos falsos labirintos da filosofia, se anseio encontrar-me com esta natureza. Para além dos microscópios me perderei no meio dos homens reais, que vivem a história real de suas vidas. Por trás da mão que escreve, a alma comum pede que eu diga: as minorias esclarecidas haverão sempre de inspirar as multidões cegas, e assim será até que os meus olhos me enganem.

18 novembro 2009

A Arte da Feiúra e da Injustiça

Sou um jogador razoável do futebol do Playstation (são tantas variações de jogos, PES, WE, Bomba Patch, que prefiro me referir a eles somente como “futebol do Play 2”). Não, razoável não. É mentira, falei aquilo por falsa modéstia. Eu jogo bem. Por um bom tempo eu fui o melhor da galera aqui. O problema é que eu não ganho uma partida. Chuto, chuto e a bola não entra, para que no finalzinho o adversário faça um gol descarado e ganhe o jogo. O futebol é o esporte da injustiça (com boas exceções, é claro). E nestas horas o leitor já deve estar se perguntando: “outro texto sobre futebol?”. Não. Eu abro com esse preâmbulo somente para dizer que dia desses fui numa apresentação de um concurso de música erudita e achei injusto o resultado.

09 novembro 2009

A Vida Não Está Lá

“É meio kafkiano esse desenho, né Julião?”, perguntou-me Paulo. E eu gastei um tempo pensando. Definitivamente, “meio” é ainda pouco, tenho de admitir. (Agora eu estou me divertindo, pois estou imaginando quais os desenhos poderão ter passado pela cabeça de vocês. Mas isso não é nenhuma brincadeira de advinha-o-quê, então vamos logo adiante).

18 outubro 2009

A bárbara de Eurípides e o Deus ex machina de Pasolini

A Medéia, uma das principais tragédias de Eurípedes, apresenta o personagem homônimo conhecido por muitos pelo epíteto da “mãe que matou os filhos para causar sofrimento ao marido que a trocou por outra”. Este epíteto não deixa de ser verdadeiro, porém reduzir o personagem a isto é um modo limitado de pensar. A lógica da vingança pura e simples de seu marido Jasão não convence a todos que se debruçam sobre o assunto e buscam entender a complexa personagem.

12 outubro 2009

Conto meu

João Filho, escritor até famoso por aí, me pediu pra publicar um conto meu no blog dele.

Pra quem não leu ainda, o endereço é este: http://www.verbeat.org/blogs/hiperghetto/2009/10/o-conto-abaixo-e-do.html#comments

04 setembro 2009

Um nascimento

Nasci em ano de copa. Uma pessoa normal perguntaria em que ano nasci. Um fanático por futebol, em que copa. E parece que no Brasil só tem fanático. Pois bem. Nesse ano aconteceu muita coisa. Coisas tristes e felizes. Antes de eu nascer teve o acidente da aeronave Challenger e o desastre nuclear de Chernobyl. Um mês depois que nasci, Jorge Luis Borges morreu. E o que tem de feliz nisso tudo? Meu nascimento, ora bolas.

14 agosto 2009

Um Truísmo

Alguns argumentos e expressões me fazem coçar a cabeça com uma careta discreta. Não porque estão certos ou errados, mas porque são proferidos à exaustão. Como aqueles filmes da sessão da tarde que, na primeira vez, são divertidos - interessantes até -, mas que de tanto repetir se tornam insuportáveis. Eles, os argumentos e expressões, se gastam, às vezes se contradizem ou alguém aparece com uma réplica melhor, mas eles continuam sendo usados como (me perdoem por mais esta comparação) uma roupa que alguém elogiou quando era nova, e por isso foi usada até se rasgar sozinha, de tão velha, pois o dono achava que ela seria bonita pra sempre.

31 julho 2009

Nove bananas para oito macacos.

Sejam bem vindos, forasteiros, à nossa confraria. Recomendo que se sintam em casa ao se adentrar em nosso clube. Nosso propósito aqui é a discussão apaixonada sobre todo e qualquer assunto. É o princípio da onigrafia. Escrever sobre tudo, inspirado nos grandes mestres onígrafos como Aristóteles, Montaigne e os macacos digitadores da biblioteca de Babel. Somos muitos, pois não há entre nós alguém de gênio suficiente para abarcar essa tarefa sozinho. Somos diferentes e teimosos, discordamos entre nós mesmos. Somos todos tolos, pois sabemos que esta totalidade jamais será alcançada. Seremos polêmicos, desagradáveis e politicamente incorretos se assim convier aos nossos instintos. Temos, entre outros, um historiador que fala de biologia, um político que fala de futebol, um químico que fala de música popular. A idéia é apresentar o que quer que seja, de maneira que um novato não se sinta perdido ao ler sobre algo desconhecido, mas que também alguém já familiarizado com o tema encontre algo de novo e interessante.