Esqueça-se a visão senso-comum de que a boazinha princesa Isabel, num gesto piedoso, resolveu libertar os coitadinhos negros do julgo da escravidão, assinando a Lei Áurea. Pensem se isso poderia ser de alguma maneira coerente. Afinal, e quanto a todas as fugas de escravos e toda a movimentação abolicionista? Por que não os haveria libertado antes? Seria possível que, com tanta gente mobilizada em torno do assunto, a abolição fosse obra de uma só pessoa? Isto é, esta história tem outros personagens que desaparecem escondidos sob a sombra mitológica de Isabel: os próprios escravos, os seus senhores, ex-escravos, oficiais do exército, os emigrantes, o nordestino, etc.
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18 novembro 2010
Até o século XIX, pretos não tinham alma: A escravidão de outrora Versus o racismo velado de agora
O sub-título é extravagante, eu sei. Veja-se como exemplo o Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, um dos maiores clássicos da literatura nacional e talvez mundial. Antes, advirto que não se trata de taxar o Machado de racista. O autor transcreve bem, em uma passagem literária, uma cena do cotidiano do Rio de Janeiro no início do século XIX. Ora: o livro é de 1881, e a retratar o início daquele século; os negros, por sua vez, só seriam libertos pela Lei Áurea em 1888.
29 setembro 2010
Os trabalhadores
Uma inovação no maquinário, precisamente a invenção da máquina a vapor e das máquinas destinadas a processar o algodão, foi o que desencadeou uma sucessão de transformações profundas, a Revolução Industrial; foi também quando se iniciou a história da classe operária na pioneira Inglaterra. É isso, o proletariado moderno nasce com a revolução das máquinas, como seu produto imediato.
10 abril 2010
O diabo que ri
Nós, os seres humanos - ou os macacos nus, na expressão do zóologo Desmond Morris - temos as faces mais expressivas de todo o reino animal (num outro extremo, estão criaturas como o crocodilo). Propriamente dito, somos os únicos seres que riem. Outros macacos e símios conseguem arregaçar os lábios para trás ou para frente, mas normalmente numa atitude agressiva que não se pode comparar em igualdade à profusão de sentidos que tem o riso da nossa espécie. Por outro lado, o que significa o riso humano? É agressivo, sarcástico, escarnecedor, amigável, sardônico, angélico, toma as formas da ironia, do humor, do burlesco, do grotesco - em que extremo se encaixará cada riso? Afinal, o riso pode significar tanto a alegria pura quanto o triunfo maldoso; a simpatia como o escárnio zombeteiro.
29 março 2010
Sob nova direção!
Ufa! Que sufoco! O confraria andou como um barco abandonado, depois que o Raviere despediu-se - e nem foi embora!
As coisas se ajustarão de outra forma. O outro co-fundador, que atende pela alcunha de Mofino, nenhum dedo movimentou nem respondeu aos contatos, enquanto o Confraria de Tolos permanecia com a aparência de um barco fantasma. Eu, cheio de cólera e irado, provoquei um Golpe de Estado.
08 dezembro 2009
As incríveis aventuras de Cícero
Não sou um conhecedor dos procedimentos divinos da salvação. Aparentemente há um céu e um inferno, antigamente tinha também um purgatório, mas acho que já o fecharam. De acordo com fontes confiáveis, o mundo espiritual é praticamente isto, o básico. Se você é um sujeito bacana, céu, se não, fogo. O Divino tem uma burocracia judicial bastante simples.
11 setembro 2009
O Século do Nada
Século acaba, entra outro. As pessoas sempre depositam expectativas num novo século, ficam mirando nele suas mitologias. O século XIX mal começava a balançar um lenço branco em gesto de adeus, já as pessoas como que festejavam: uma era de esperanças parecia se abrir incólume e triunfalmente, atestando o poder do homem. Parecia que esta espécie de macacos nus estava destinada a sucessos. Éramos Humanos, e arrotavam isso como quem declara a posição mais confortável do Universo.
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