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11 abril 2011

Em defesa das cores

Qual o legado de um cético? Refiro-me aqui a profissionais específicos, um típico Richard Dawkins, um Bertrand Russell ou todos aqueles que elegeram deus e qualquer subjetividade como inimigos da verdade. Qual mundo nós herdaríamos destes sujeitos?

07 outubro 2010

Acentos

Cadeira é cadeira,

sem o “r” é cadeia,

prisão ou evolução.

Pra quem nasceu agora,

cadeira de bebê.

Se comer direitinho,

cadeira do presidente.

Pra quem cansou de andar,

cadeira de balanço.

Pra quem não pode, de rodas.

Pra quem andou de mais,

elétrica.

Rodolfo Carneiro

23 setembro 2010

Quando eu vou

Esse problema não é de ninguém,

tropeçamos nele, levantamos e seguimos.

É um imenso problema,

mas não é meu.

Se quiser, leve-o com você.

Dê-lhe banho, corte as unhas, faça como quiser.

Mas não o deixe aqui, na minha frente.

Porque aqui eu o vejo, o sinto,

e não o quero sentir, ver, cheirar.

Leve-o e lhe darei alguns trocados,

Mas nunca mais apareça, você, ele e todo o resto.

Suma, e suma comigo também,

me desapareça.

Mas me desapareça devagarzinho

que é pra eu poder lembrar por que eu quis assim.

Rodolfo Carneiro.

18 setembro 2010

Março

No ponto de ônibus,
um amontoado espera.
Está oco,
as roupas lhe mantêm a solidez,
uma lembrança o liquefaria.
Vota, consome, fode e reza,
Mas não existe, não está.
Perdeu a si mesmo sozinho,
errou o caminho,
envelheceu.
Cadê o antigo futuro?
Onde o deixou?
Em cima da estante,
no porta-retrato irreconhecível?
No amigo que morreu de repente?
Ou naquele dia perfeito que insiste existir?

Sacode a cabeça homem!
Tome o meu lenço.
Viva o que é, uma extravagância passageira.
Se puder, espera.
Espera o inevitável.
Espera o ônibus.
Espera eu desmentir o seu poema,
mas não me espere mais.

Rodolfo Carneiro

29 abril 2010

O espetáculo da verdade

Para quem é feita a ciência? Este conhecimento recente que arrebatou o imaginário popular decerto não possui um caráter per se, alicerçado no ato puro do conhecer. Se porventura outrora houve este dia, nós apreciamos ainda a pouco o seu crepúsculo. Não há mais lugar para aquele inusitado senhor genioso e seus cabelos esvoaçados. A institucionalização da ciência, coisa nova, trancafiou a indagação dentro do laboratório - e como tudo que valha a pena, o laboratório tem um dono.

29 março 2010

Sob nova direção!

Ufa! Que sufoco! O confraria andou como um barco abandonado, depois que o Raviere despediu-se - e nem foi embora!

As coisas se ajustarão de outra forma. O outro co-fundador, que atende pela alcunha de Mofino, nenhum dedo movimentou nem respondeu aos contatos, enquanto o Confraria de Tolos permanecia com a aparência de um barco fantasma. Eu, cheio de cólera e irado, provoquei um Golpe de Estado.

25 fevereiro 2010

Sobre a moral esclarecida

Sempre duvidei de Deus, nunca de suas obras. Já o Diabo, esse pervertido imoral, eu o conheço desde os meus dias de menino. Lembro que estes sentimentos atravessavam-me enquanto apreciava um bom chá de cadeira numa igrejinha domingueira. O que hoje nos ensinam os sacerdotes? Ainda crêem nas potestades que maculam o cotidiano? Por outro lado, como querem os Modernos, os Cientistas, se todo o mal aflora futilmente das práticas humanas, e não mais dos corações das almas e dos arcanjos, como guiar-nos sem um horizonte tangível?

08 dezembro 2009

As incríveis aventuras de Cícero

Não sou um conhecedor dos procedimentos divinos da salvação. Aparentemente há um céu e um inferno, antigamente tinha também um purgatório, mas acho que já o fecharam. De acordo com fontes confiáveis, o mundo espiritual é praticamente isto, o básico. Se você é um sujeito bacana, céu, se não, fogo. O Divino tem uma burocracia judicial bastante simples.

21 novembro 2009

A sombra do que não se vê

Os doutores nos encarceram numa natureza humana. Virtuosos, pervertidos, altruístas e interesseiros se acotovelam sob os grilhões de nosso ego imutável. Somos criaturas submissas, diz-nos os artífices do espírito humano. Talvez sejamos. Mas não careço de me perder nas miudezas ilusórias de proteínas e neurônios, nos falsos labirintos da filosofia, se anseio encontrar-me com esta natureza. Para além dos microscópios me perderei no meio dos homens reais, que vivem a história real de suas vidas. Por trás da mão que escreve, a alma comum pede que eu diga: as minorias esclarecidas haverão sempre de inspirar as multidões cegas, e assim será até que os meus olhos me enganem.

28 outubro 2009

Do direito das pessoas e das pedras

Preservar é fashion, preservar árvores e culturas é a ultima tendência primavera-verão. Aceitar este mundo sustentável e correto é um exercício penoso que tento aperfeiçoar em vão, tento tomar as dores de feridas que não sinto. Cada árvore que vejo pela televisão é uma cadeira, uma porta ou uma mesa em potencial, são apenas bonitas, nada mais. Sou um sujeito do concreto, amplamente civilizado na tradição ocidental-cristã. Besouros, micos e araras não fazem parte da minha dieta de preocupações, estão tão distantes e são tão irreais quanto as fábulas comunistas do século passado. Sou cativo do meu tempo e, talvez por não possuir filhos, não me animo com um futuro póstumo. Ando por aí e vejo muitos aleijados escorando-se nestas muletas éticas. Sinto-me nauseado, violentado por estas tendências conservacionistas. Como diz Matt Ridley, “a noção de vida em harmonia com a natureza se baseia apenas no desejo de que seja verdade.”

29 setembro 2009

Campo Santo: O Retorno

Fizemos uma visita ao cemitério. Eu me senti dentro do meu texto¹, mais uma vez. Chegamos (eu, Paulo e a mãe dele) em salvador no sábado. Ficamos em casa naquele dia. E Tia Nailce: "Ah, Paulo! Tá muito chato. Eu quero caminhar, passear, sair!" Paulo tentou remediar, levou-a pra caminhar no outro dia.
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E Tia Nailce: "Ah, Paulo! Você quer me matar? A gente caminhou como de Canarana para Irecê".
Paulo: "Mas não era o que você queria?"
Tia Nailce: "Não, eu quero visitar lugares interessantes, não é só ficar caminhando sem rumo e tudo bem. Você só me fez subir e descer ladeiras infinitas".
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23 setembro 2009

As luvas da mão invisível


Como são prazerosos os filmes de ficção científica, prazerosamente ridículos. É um exercício de humor ver nos filmes de ontem o futuro que vivemos hoje. Tudo é muito extravagante, muito brilhoso, há distopias, computadores egocêntricos e roupas lamentáveis. Claro, são filmes de ficção, é arte, e à arte permitimos qualquer tipo de insensatez - normalmente. Mesmo assim são prazerosos, permitem-nos desenvolver uma espécie de sabedoria atrasada, póstuma, capaz de solucionar problemas que já não existem mais.

25 agosto 2009

Post R003/09

Vamos falar de textos chatos. Eu, Rodolfo Carneiro, jovem adepto deste artifício, alvo de risadinhas desconcertantes dos editores sérios deste blog, reconheço, espontaneamente, ser um chato militante – não um militante chato. Tudo tem limite. E se isto pareceu uma introdução legal, não se enganem. Pegar-vos-ei com as calças na mão.

22 agosto 2009

Sob a razão

Sinto-me livre quando compelido a escolher entre o certo e o errado, consensualmente erro. Não sei se foi por esta sensação que alguns europeus abriram mão de suas existências no distante século XVIII. Mas se por isto morreram estão vingados. Agir com este caráter é agir de forma racional, apesar de aparentemente ser um absurdo.
E o que é ação racional?

03 agosto 2009

Klaatu barada nikto

Certa feita, meu amigo e parente Raviere intimou-me, como é do seu feitio, a assistir o preto-e-branco O dia em que a terra parou (The Day the Earth Stood Still, Robert Wise). A data escapa à memória, mas estávamos próximo do lançamento de um remake homônimo. A situação era uma oportunidade de exercitar meu pedantismo cinematográfico, declarar para mundos e fundos como o original era superior (declaração comprome-tedora, “superior” virou palavrão). E de fato a refilmagem é uma cretinice. Paciência! Neo, vulgo Keanu Reeves, e sua enigmática cara de paisagem, somado a um argumento estrategicamente encomendado engrossam a famosa teoria-do-remake-que-fica-pior-que-o-original. Já o filme de 1951, que também não é a bússola do cinema, segundo meu criterioso bom senso, tem um desfecho bacana e é disto que gostaria de tratar.