13 fevereiro 2011

A misteriosa

A Paulo Raviere e Janine Oliveira

A história que lhe contarei é sobre a mulher mais excêntrica que já entrou no meu bar. O nome dela é Mohamed, e isso é tudo o que sabem sobre tal figura. Ela tem estatura mediana, é magra, cabelo curto e liso, possui leves traços indígenas e reza a lenda de que ela veio do Acre e os fuxiqueiros de plantão até apontam um certo parentesco com a candidata do PV(Partido Verde): Marina. Vai saber, né?


É, lá se vai embora minha educação naquele caminhão carregado de maus modos. E que de tão ansioso para contar sobre minha cliente, acabei esquecendo de me apresentar. Sou o Pedro, dono do Bar Confraria de Tolos; mas todos aqui me conhecem por Pedrinho. Possuo uma barba que me deixa parecendo um bode e uso um chapéu preto que faz minha cabeça inclinar levemente para a esquerda, isso quando estou são; porque as más línguas, e aqui é só o que tem, falam que quando bebo umas cachaças erradas minha cabeça inclina para a direita. É meu medidor, ou pelo menos era; porque eu não bebo há 237 dias.
Pronto, agora que já me apresentei devidamente, poderei dar continuidade à história de Mohamed. Eu nem sei se esse é o seu nome, mas a ouvi se denominando assim duranate um telefonema:

- Não, bocó, aqui é Mohamed.

Mas vá saber se ela faz parte de alguma organização secreta na qual Mohamed é apenas um codinome? Bom, vou deixar minha habilidade em ser prolixo de lado e me ater na personagem principal. Faz pouco mais que quatro anos quando ela cruzou a porta do bar pela primeira vez, pediu-me uma vodka e se sentou. Não passava das 18:00 horas; desde esse dia ela retornou todos os outros no mesmo horário, pedindo a mesma bebida até então. Ninguém sabe de onde veio ou o que faz da vida. Um verdadeiro mistério. Já vi poucas pessoas se aproximarem dela para tentar um diálogo:

- Boa noite gatinha! - Falou um fanfarrão certa vez.

- Com licença...- Respondeu Mohamed educadamente ao se levantar e sentar em outra mesa.

Ela bebia durante horas, em alguns dias ficava olhando para o nada e em outros lia livros que carregava em sua bolsa. Quando ia embora, pedia a conta, pagava e só se despedia com um agradecimento. Nunca a vi fora do bar; eu nunca saio, tampouco ouvi alguém comentar que a viu.

Certo dia, ao ir embora, ela confessou para mim:

- Pedro, eu preciso parar com esse vício. Vodka e eu não dá certo.

Ela deu um sorriso de canto de boca e saiu antes que eu pudesse retrucar. Fiquei bestificado por ela ter falado mais que o normal. Acho que devo ter até babado por ter ficado tanto tempo com a boca aberta. E ela deve ter pensado que eu era retardado, se bem que deve ter bebido além da conta...

Bem, além desse episódio, houve outro dia em que ela conversou comigo. Faz pouco mais de um mês.

- Pedro, hoje eu quero uma dose de cada bebida que você tem. Deixa a vodka por último e passa para cá logo esse Martini aí...

- Uai! Bicha doida, tu vai ficar morrendo de bêbada assim!

- Hoje vale! - Falou antes de virar uma dose de tequila.
E toma-lhe cachaça! Foi whisky, Abaíra, Ypióca, Seleta, rum, Amarula. Até cachaça com escorpião dentro essa mulher tomou. Por pouco não chamo um padre para exorcizá-la.

Nem me recordo quantos copos aquela mulher virou. Só a vi correr meio cambaleando para o banheiro. Não vi se chegou ou quando saiu; uma confusão com outros fregueses tomou minha atenção pelo resto da noite. No dia seguinte ela retornou, sempre no mesmo horário. Achei que já tinha voltado para sua rotina e já ia lhe servindo vodka...

- Pedro, eu não quero. Eu vim pagar a conta. Vodka e eu não dá certo. Encontrei Jesus e estou partindo hoje para o Maranhão.

Eu só balancei a cabeça de forma afirmativa, achei que ela ainda estivesse bêbada e foi melhor concordar. Ela pagou a conta, não bebeu nada, e foi embora. Eu fiquei invocado: Será que ela estava falando sério? Terá ela encontrado um maranhense chamado Jesus? Ou será que se converteu para alguma religião? Por que logo para o Maranhão?

Fiquei esperando por ela nos dias seguintes, mas ela não retornou. Nunca entendi aquela criatura, muito menos sua despedida. Mas não posso negar que gostei dela por conta do mistério. Adoro um enigma e não é à toa que ainda penso nela.
Acontece que eu desvendei parte do mistério (pelo menos acho que sim). Sou um grande detetive. Acho que aquela mulher é uma viciada em vícios. Bocó. Deve ter dinheiro para se sustentar pelo resto da vida e vive por aí procurando algo que a faça acreditar que está bem. Veio, viciou-se em vodka. Conheceu Jesus e ficou viciada nele, não a julgo porque agora sei que ele é uma delícia. Sabe-se lá qual será o próximo vício.

Ah, já ia esquecendo de falar o que é esse possível Jesus. Não é entidade religiosa ou pessoa. Conheci um tal refrigerante rosa chamado Jesus, e adivinha? Originado do Maranhão. Ishi... A sociedade e os malucos com os seus vícios. Deixa eu cuidar do meu bar que eu ganho mais.

Érica Vilela

9 comentários:

  1. Só tenho uma coisa a dizer, vodka não se dá com ninguém. Prefiro meu querido Domecq.

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  2. Laisinha cachaceira.

    Eu mato e morro por uma caipirosca com vodca razoável.



    Tou com moral, ein?

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  3. Adoro Domecq.

    Adoro Vodka.

    Melhor parar. rs

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  4. Depois me passo como cachaceira.

    Essa criatura do texto é a cara de Paulinho...será pq?

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  5. Vixe, gostei muito desse texto! Tenho pouco tempo pra frequentar essa Confraria, mas sempre que venho vou-me embora satisfeita! Não satisfeita por ir embora... ah! enfim! Acho que vocês entenderam...

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  6. Que legal, muito tempo sem aparecer por aqui e encontro um texto divertido desses.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. E três meses depois, uma mulher ainda mais excêntrica, cabelos longos com mechas louras, sorriso contagiante, um corpo delineado e sedutor entrou em meu bar. Uma sensação de déja vu - senti – O brilho em seus olhos indicava um mistério. A passos firmes aproximou-se e pediu uma vodka. Um sorriso íntimo de canto e uma piscadela me deixaram ainda mais curioso. Seu olhar percorria todo o bar, parecia procurar algo e ao mesmo tempo expressava recordação, aquilo estava se tornando um enigma e eu precisava decifrá-lo – sentia estar completando o quebra-cabeça. E de repente seu rosto virou em minha direção, seu olhar fulminou o meu, fazendo-me despertar dos meus pensamentos e, sua boca carnuda mencionou a seguinte frase: - Pedro, hoje eu quero uma dose de cada bebida que você tem. Deixa a vodka por último e passa para cá logo esse Martini aí...
    Incrédulo a reação só veio após 5 segundos – Mohamed- aquela mulher misteriosa. Coloquei uma dose de Martini e ela bebia saboreando cada gota. Parecia poder distinguir o gim do vermute.
    ...
    Deve ter deixado o vício de Jesus – o que aconteceu? Qual será o próximo vício dela? – e mais uma vez fui surpreendido, agora, pelo tilintar do seu celular, fazendo-me deixar meus pensamentos. Ela atendeu com uma voz sedutora-alô. Ela ouviu a outra linha por segundos e então sussurrou: preciso que me traga vod...ka pa..cu...assado imediatamente aqui no bar dos confrarias de tolo – mal pude ouvi-la. Confesso que achei tudo aquilo muito estranho. Ufs!! Seria mais um vício? Que loucura, que loucura – pensou Pedro. Ela então desligou o celular dizendo – tudo bem, daqui a dez minutos? Ok, eu estou esperando.
    ....
    O relógio agora era meu foco, esperei cada minuto ansioso para descobrir quem iria chegar trazendo vod...ka pa..cu..assado para aquela misteriosa mulher. Pensou Pedro
    A curiosidade está aumentando seu fluxo sanguíneo caro leitor, calma, eu já irei revelar.
    ....
    Como previsto um homem entrou no bar com uma garrafa de vodka e um embrulho de jornal sobre os braços e seguiu em direção a mulher misteriosa. Hipnotizado ao ver aquele homem segurando aquela garrafa e aquele embrulho, mergulhei nas mais loucas imaginações tentando entender como a mulher usaria a garrafa de vod..ka pa...cu... assado.
    O homem finalmente chegou até a misteriosa mulher e disse: está tudo aqui minha deusa, você ficará satisfeita. E colocou a garrafa sobre a mesa- eu me perguntava que diabos era aquele embrulho? Por que ela ficaria satisfeita?Pensou Pedro- e lentamente, muito lentamente ergueu o misterioso embrulho – parecia slow motion, pensou Pedro- e colocou-o sobre a mesa. Seus olhos não desviavam-se dos dela e os meus não desviavam-se daquele enigmático embrulho. E finalmente ele ABRIU o embrulho. E o caro leitor poderia me dizer o que havia lá dentro??? Três segundos para pensar!
    E o que havia lá dentro era surpreendente, jamais passaria pela cabeça de Pedro ser aquilo. Mas, Pedro, dono de um bar, acostumado a fazer tira gosto para seus clientes logo compreendeu. Finalmente o enigma foi revelado, Ele não pode conter o riso. ERA PEIXE. Pacu assado era um bendito peixe.
    A sociedade e os malucos com seus vícios. Deixa eu cuidar do meu bar que eu ganho mais – pensou Pedro.





    Celula Tronco!

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