18 novembro 2010

Até o século XIX, pretos não tinham alma: A escravidão de outrora Versus o racismo velado de agora

O sub-título é extravagante, eu sei. Veja-se como exemplo o Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, um dos maiores clássicos da literatura nacional e talvez mundial. Antes, advirto que não se trata de taxar o Machado de racista. O autor transcreve bem, em uma passagem literária, uma cena do cotidiano do Rio de Janeiro no início do século XIX. Ora: o livro é de 1881, e a retratar o início daquele século; os negros, por sua vez, só seriam libertos pela Lei Áurea em 1888.

O personagem Brás Cubas é um cidadão de boas condições sociais. Quando pequeno, convivia com moleques escravos e até mesmo com eles brincava. Mas não se confunda as coisas: ele era dono. Um moleque em especial lhe agradava, com quem brincava, fazendo-o seu jumento nos divertimentos. Bem mais adiante no enredo, o Brás Cubas liberta o seu escravo (fugiu-me agora o nome dele no livro, alguém lembre, por favor), como recompensa pelo bom serviço prestado, coisa que às vezes acontecia. Engraçado, décadas mais tarde, está passando o Brás Cubas e vê o seu ex-escravo arrebentando as costas de um pobre coitado. Conclusão: hoje certamente nos indignaríamos com uma coisa dessas; mas, há menos de duzentos anos atrás, se um escravo ganhasse carta de alforria, a liberdade, a primeira coisa que ele fazia, se dispusesse de meios para tal, era comprar escravos! E, tal como o faria um branco, os surrava para lhes disciplinar.

Até o século XIX, preto não tinha alma. A Igreja dizia que não tinha, pelo menos, e por isso permitiu a escravidão negra nas Américas. O argumento era que os negros fossem uns brutos, meio-animalescos, mais próximos do reino animal que do reino humano (Os biólogos darão risadas: como se o humano algum dia tivesse alcançado um reino destacado dos outros animais. Uma pilhéria).

Não causava agonia alguma a um ex-escravo, ou à sociedade, ele mesmo comprar escravos. Muitos deles terão acreditado no discurso de que eram mesmo mais feios, mais broncos, estúpidos, imorais e imbecis, e, mais tarde, acreditado na suposta explicação de que estavam atrás numa corrida evolutiva. Quando não acreditavam, a força se impunha. A Revolta dos Alfaiates, que aconteceu na Bahia, na passagem para o séc. XIX, reclamava a separação de Portugal, bem como clamava maior liberdade e igualdade social, inclusive – talvez especialmente - para os escravos, foi suprimida com violência. Os suspeitos que não foram degredados para África foram esquartejados e expostos em estacas pelas ruas das cidades. Outros milhares de focos de revolta por todo o país tiveram semelhante desfecho.

Além das muitas revoltas, houve as resistências em quilombos. Houve suicídios, suicídios coletivos, infanticídio, tudo o que fosse uma afronta à lógica econômica que tinha pessoas como instrumentos de trabalho inanimados, uma res, uma coisa, igualmente ao que diziam os antigos romanos sobre os seus próprios escravos. A única diferença, eles acreditavam, de um escravo para uma coisa, é que eram coisas falantes. Coisas mesmo assim! Contudo, diferente da escravidão antiga, a escravidão do Brasil Colônia/Império tinha um motivo de cor. Pessoa de cor era um sinônimo de pessoa de trabalhos pesados e/ou braçais. E trabalho braçal era sinônimo de humilhação. E humilhação é uma das coisas que pessoas normais evitam.

A escravidão brasileira não tinha preocupações de maquiagens morais. Explorava os negros. Não fazia mistério sobre isso. Mas agora é outra coisa. Todos fingem que não existe racismo no Brasil. Se alguém fala em racismo, é motivo para causar horror, ou alarme. É um tabu. É como falar em prostituição infantil, todos arregalam os olhos como se nunca tivessem visto ou ouvido falar naquilo, é como se não pertencesse ao nosso mundo; mas, se não pertence – ou você vive num pequeno paraíso em que estes deslizes realmente não acontecem, ou você desvia os olhos do problema debaixo do nariz.

Nós brasileiros temos tanta vergonha de admitir que somos racistas quanto temos em admitir que, por exemplo, nós temos algum filho gay. Incomoda o nosso senso de delicadeza, mas não resolve nenhuma questão.

Juliano Dourado Santana

29 comentários:

  1. O texto está muito bom, como sempre.
    Mas pelo título achei que fosse explorar mais a questão do racismo atual, que só apareceu na conclusão. Esperava um texto mais ácido, como geralmente você gosta de escrever. Sugiro, então, uma parte 2 para o texto.

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  2. Ah, não advinha - e não espalha - que vai ter volume 2.

    :p

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  3. Divulgar aqui uma rede social para leitores, uma espécie de "orkut de nerds", como apelidou paulinho:

    http://www.skoob.com.br/estante/livros/todos/162839

    Acho que todos podiam participar.
    Vale a pena!

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  4. O nome do negrinho é Prudêncio.

    Não há como taxar o Bruxo de racista, mesmo que ele não fosse mulato. Isso é coisa dessa crítica enjoadinha PC que apareceu tem uns tempos e que Harold Bloom tanto esculhamba.

    Nos EUA tem essa polêmica com Mark Twain, que usa "nigger", entre outras coisas, toda hora, e isso é meio perjorativo hoje em dia.
    Em Huck Finn, um menino branco adotado foge de sua casa com um escravo, descendo o Mississippi. O negro é seu amigo Jim. Num momento, ele se pergunta se seria certo roubar a propriedade alheia daquele jeito. Os donos sentiriam falta de seu escravo e ele não queriam que alguém fizesse isso com ele.

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  5. Juliano, texto excelente! Acrescento que o preconceito vestido de apartheid branco X negro, pode ser visto também como negro X branco. Se ressaltarmos como ocorrem os matrimônios geralmente entre pessoas da mesma cor. Será o amor xenófobo?
    Antônio.

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  6. Concordo com a posição de Juliano, como já é do conhecimento de todos. No Brasil, mesmo que tenhamos essa mistura genética toda, o racismo é camuflado. Lembro-me de um caso específico na família. Tenho uma prima cujo filho, um garotão branquelo dos olhos verdes, casou-se com uma negra filha de um prefeito. Ela tinha ido lá em casa, para ser apresentada, e a única coisa que eu conseguia ver eram os dentes, incrivelmente brancos e perfeitos. Claro que houve um malestar entre todos. Mas isso não é tudo. Tempos depois, o garoto adquiriu aquela doença que faz a pessoa engordar descomunalmente. Resultado: a mulher o deixou, na boa, claro. Mas minha prima, mãe do agora branquela gorducho, não se deu por menos: "Urubu! Urubu! Urubu!", costuma exclamar quando se refere a ela. Por essas e outras, eu considero o racismo uma realidade e dificilmente será extirpado da condição humana. Mesmo com toda essa miscigenação global, sempre haverá algo de condenável no outro.

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  7. Será que terminaremos 2011 com 43 textos também?

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  8. Juliano,
    Donde tirou você a mentira de que até o século XIX a Igreja considerava que o negro não tinha alma? E São Benedito, um monge católico negro do século XVI que a Igreja canonizou? Como podia ela ter um sacerdote negro, e ainda por cima torná-lo Santo, se achava que negro não tinha alma?
    Aqui em Pernambuco existiam confrarias e igrejas dos "homens pretos" desde o século XVIII. A maior era a confraria e igreja de "Nossa Senhora do Rosário dos Pretos". Por isso pergunto: como poderia um Bispo católico do século XVIII permitir em Pernambuco confrarias e templos de negros se a Igraja os considerava destituídos de alma?
    Você pisou feio na bola, Juliano. A mentira não ajuda em nada a causa da democracia e da justiça!

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  9. Milton Cardoso,
    Racismo camuflado existe em toda parte do mundo e é um fenômeno psicológico. O diabo é o racismo explícito e violentamente excludente! Nos EE.UU. ainda existe muito racismo camuflado e às vezes alguns malucos põem as unhas de fora, mas lá isso agora dá cadeia e o povo americano (branco em sua imensa maioria) elegeu um negro presidente. O lugar onde o racismo não tem nada de "camuflado" e é o mais violento e excludente de todos é a África, onde há pouco tempo a majoritária etnia Utu praticou um gigantesco genocídio contra a minoritária etnia Tutsi. Fala-se no massacre de meio milhão de pessoas, inclusive mulheres, velhos e crianças. Isto é que é racismo e não as bobagenzinhas localizadas, que não incluem crimes hediondos, apontadas por você em um caso familiar específico e sem qualquer repercussão na sociedade como um todo.

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  10. Virgilio,

    Achei muito interessante os fatos que você nos conta sobre a posição dos negros na hierarquia católica pernambucana. Gostei. Muito relevante, sem dúvida, e dá mostra de quanta ironia e contradição compõe a história. Apesar disso, sinceramente eu não inventei mentira alguma. E já explico:

    No alvorecer da ciência moderna, o matemático católico francês René Descartes (1596-1650) postulou uma cisão fatal entre a realidade material e a realidade pensante. (Vou dispensar aqui, em benefício do leitor, os termos em latim que ele utilizou). Só os seres humanos, afirmou Descartes, faziam parte de Deus, por serem dotados de alma. Até os animais, apesar de parecerem sentir dor, eram máquinas - vastos mecanismos, complexo de engrenagens - desprovidas de alma.

    Eis que muitas fontes históricas (em contradição com os dados que você apresentou, o que torna isso tudo ainda mais interessante!) nos apresentam os negros no Brasil antes do século XIX em condição semelhante à dos escravos romanos, isto é: conversão de seres humanos em meios inertes de produção, por sua privação de todo direito social e sua legal assimilação às bestas de cargas. No linguajar da teoria romana, o escravo da agricultura era designado como sendo , um grau acima do gado, que constituia em , e dois acima do implemento, como o machado, que era um . A escravidão, portanto, tanto no caso da antiguidade clássica quanto no Brasil Colonial, era a redução da individualidade a um objeto padronizado de compra e venda.

    Ao contrário do Cidadão, com direitos assegurados, os negros eram meramente instrumentos de produção econômica, e não eram considerados "pessoas", conforme afirma Lynn Hunt no seu mais recente livro "A invenção dos Direitos Humanos". E uma poderosa doutrina ideológica veio piorar as coisas: a opinião de que a escalada evolutiva darwiniana <> que os negros estavam um patamá abaixo em relação aos europeus e especialmente os arianos. Essa falsa idéia fundamentou e legitimou uma moral civilizadora européia como uma "sobrevivência do mais forte". Para usar um exemplo que eu já utilizei anteriormente, em outro texto, a primeira vez que foi permitido a um jogador negro jogar pela Seleção Brasileira foi em 1938!! Você pode se perguntar, será que não haviam jogadores negros no Brasil antes dessa data? É claro que haviam. Mas eles eram proibidos, legalmente, de jogar. Assim como eram proibidos de votar, entre outras coisas.

    No texto, desenvolvi um exemplo sobre escravidão em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Para uma análise menos superficial, além da própria obra machadiana, deve-se consultar “Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis”, livro excelente de Roberto Schwarz.

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  13. Para usar outro exemplo, também já desenvolvido por mim em outro texto deste blog: Houve uma revolta contra um cemitério em Salvador, em 1836. As pessoas queriam que as suas almas tivessem bom destino, depois da sua morte. E se revoltaram quando o governo tentaram, por motivos higiênicos, impedir que os defuntos fossem enterrados dentro das igrejas. Era preciso impedir que isso acontecesse. Se os defuntos não fossem enterrados em terreno sagrado, junto à santa igreja, que destino poderia ter as suas almas? E, no entanto, quantos negros escravos eram enterrados no Campo Santo? Nenhum. Eles eram abandonados num terreno baldio abandonado e distante.

    A história é complexa demais. E eu espero não ter cometido nenhuma generalização irresponsável. Além do mais, tenho consciência de que meu texto é bastante polêmico e que mexe com os nervos de qualquer um. Fatos como os que apontou o leitor Virgilio, assim eu penso, enriquecem o meu ponto de vista, mostrando um aspecto que sequer meu texto foi capaz de abarcar.

    Penso ainda que é preciso tentar enxergar as coisas no seu devido tempo, do contrário, vamos contar a história dotando os soldados romanos com metralhadoras rotatórias e os maias com relógios digitais. A Igreja no século XVIII era o que ela podia ser, era fruto das circunstâncias, como tudo mais o era.

    Se uma enxuta bibliografia puder ajudar, eu indico:

    ANDERSON, Perry. Passagens da antiguidade ao feudalismo;
    HUNT, L. A invenção dos Direitos Humanos;
    HOBSBAWM, Eric. A era dos impérios (1875-1914);
    QUEIROZ, Sueli. A abolição da escravidão;
    GALEANO, Eduardo. As veias abertas da américa latina;
    KEITH, Thomas. O homem e o mundo natural (1500-1900);
    REIS, João. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX
    MOURA, Clóvis. História do negro brasileiro.
    Cadernos brasileiros: Abolição.
    MOTT, Luiz. O sexo proibido.

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  14. O blog engoliu algumas expressões minhas, por motivos de formatação que não conheço. Vou reproduzir novamente somente o trecho prejudicado:

    No linguajar da teoria romana, o escravo da agricultura era designado como sendo intrumentum vocale, um grau acima do gado, que constituia em instrumentum semi vocale, e dois acima do implemento, como o machado, que era um intrumentum mutum. A escravidão, portanto, tanto no caso da antiguidade clássica quanto no Brasil Colonial, era a redução da individualidade a um objeto padronizado de compra e venda.

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  15. Olha!

    Nem concordo, nem discordo. Muito pelo contrário!

    "O negro São Benedito é geralmente considerado um santo imaginário, criado pelos portugueses para manterem os escravos mais eficazmente em submissão. [Pois] Não existem registros sobre sua pessoa, onde residia nem quando foi canonizado". Dicionário da escravidão negra no Brasil, de Clóvis Moura, página 68.

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  16. São Benedito: Santo ou negro? – A troca de um santo negro por uma santa branca na cidade de Encruzilhada.

    http://www.uesc.br/eventos/cicloshistoricos/anais/fabiola_pereira_de_araujo.pdf



    É um texto que argumenta que o São Benedito, apesar de santo, sofria preconceito racial!

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  17. Juliano,
    Você, como todo intelectual politicamente correto, fugiu da questão central: a sua afirmação absurda de que a Igreja, até o século XIX, considerava que o negro não tinha alma!
    Isto é mentira e você sabe muito bem que é uma calúnia contra a Igreja e os santos sacerdotes que lutaram contra a escravização dos nossos índios, como foi o caso do padre Vieira.
    A dos africanos envolvia complexas questões jurídicas sobre "capitis diminutio" e "status libertatis", suprimido não por mercadores brancos, mas por reis africanos. A sua escravização e venda por seus reis, criava um contrato de direito civil: as partes eram legítimas e o objeto validado por quem tinha autoridade para fazê-lo: o soberano africano escravizador e vendedor!
    Se você quer culpar alguém pela escravidão, culpe primeiro os reis e as instituições africanas que a consagravam. Durante toda a Idade Média os reis africanos mantiveram um ativo comércio com os traficantes árabes do Oriente Médio. Nessa época o feudalismo já substituíra o escravismo na Europa e, quando foi ressuscitado na América, falhou com os índios porque eles não o conheciam e o rejeitavam com o apoio da Igreja; por isso os traficantes foram buscar escravos na África, onde a coisa era legítima e os reis africanos ganhavam fortunas com o negócio.
    Ao invés de se basear em mitologia, um homem inteligente e culto como você devia se basear em história de verdade.
    Por favor não fique magoado, mas o que você disse foi um insulto à memória do padre Vieira e do meu saudoso amigo Dom Hélder Câmara.
    Deus esteja com você.

    Notas:
    1) Descartes e o mecanicismo não têm nada a ver com escravidão, que já existia há milênios;
    2) Dizer que os negros eram jogados em um monturo ao invés de enterrados é mentira. Só se era em Salvador, coisa que não acredito;
    3) Que maluquice é essa de dizer que São Benedito foi invenção dos portugueses? Por que não dos espanhóis? Ou dos franceses? Todos eles tinham colônias na América e aqui usavam escravos. Ademais, a escravidão negra só começou aqui no início do século XVII; antes era a dos índios, e foi no século XVI, antes da vinda de escravos negros para a América, que São Benedito viveu e foi canonizado.
    4) É cretinismo dizer que não há provas da canonização de São Benedito. Quem disse essa besteira nunca cruzou as portas da biblioteca do Vaticano!
    5) Santos negros nunca foram novidade na Igreja: São Moisés, um centurião negro cristão, que foi martirizado pelo imperador Galério, foi aclamado santo ainda no Século IV, logo após o imperador Constantino oficializar o cristianismo. Há vários outros; quem quiser saber, pesquise.
    6) O livro do Sr. Clovis Moura é uma coletânea de bobagens!

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  18. Juliano,
    Relendo seus longos "contra-comentários" (Será que existe isso?), vi que faltavam algumas notas ao meu "contra-comentário" de óntem.
    Vamos lá:
    7) A "lei do mais forte" sempre existiu; ela nem foi criada por teorias inspiradas em Darwin nem deu aos europeus o senso de superioridade sobre outros povos e raças. Este só surgiu no século XIX, quando a revolução industrial lhes deu poder imenso e eles dominaram grandes nações como o Egito, a Pérsia, a Índia, a China, a Indochina e a Indonésia (o Japão só escapou porque era pobre e se fechara 200 anos antes);
    8) Até o começo do século XIX a escravidão era vista só pelo lado econômico e não implicava ideia de superioridade racial; mas o sucesso do "homem branco" criou a crença burra de que ele se devia não à superioridade técnica, mas à "superioridade racial". Foi assim que surgiu a pseuda "ciência do racismo" (na verdade uma ideologia) pela pena de eruditos equivocados como Gobineau e Chamberlain. A partir daí a estupidez imperou e deu no que deu;
    9) Para nossa glória, o português foi o único império que não entrou nessa (até porque "inventara o mulato"); por isso ele durou o dobro dos demais e acabou sem estrondo;
    10) Qual o jurista ignorante que disse que negro não tinha direito de voto no Brasil até às primeiras décadas do século XX? Será que o engenheiro André Rebouças, negro bahiano formado em Paris, amigo íntimo do imperador Pedro II (a quem acompanhou no exílio) e seu ministro de obras públicas não votava? E o famoso jornalista negro José do Patrocínio, amigo da princesa Isabel e vereador da Câmara Municipal da Corte? Terá sido ele eleito sem ter o direito de voto? Seria isso possível? Em todo caso, gostaria que você me apontasse o dispositivo constitucional ou legal contendo tal proibição.
    11) Finalmente, você precisa estudar mais a história do nosso futebol, porque a sua afirmação de que até 1938 negro era LEGALMENTE impedido de jogar em nossos times é totalmente inverídica. Pode me mostrar o número e a data dessa Lei? Não pode porque ela nunca existiu. Nos anos 20 já tinha muito negro jogando e não foi em 1938 que o primeiro deles integrou nossa seleção, mas em 1919: o grande Friendreich (mestiço de marinheiro alemão com mulata carioca), sob cujo comando ganhamos o nosso 1º troféu internacional: a Copa Roca!
    É isso aí amigo. O Brasil é muito melhor do que julgamos!
    Grande abraço.
    PS. Visite o meu blog: virgiliocamposhistoriaantiga.blogspot.com
    Abrs.

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  19. Virgílio,


    1) A escravidão existia antes de Descartes, obviamente. Mas isso não implica que, por isso, o mecanicismo não tenha nada a ver com a escravidão moderna. Premissa verdadeira. Conclusão falsa.
    2) Os escravos de Salvador eram realmente jogados e amontoados sem ritual num terreno baldio, chamado Campo da Pólvora. Você pode não acreditar - tem esse direito, claro -, mas deve saber que as provas de um historiador são documentos. Pois bem, esse fato é muito bem documentado. E o João José Reis escreveu sobre isso um livro belíssimo publicado pela Companhia das Letras. Você devia conferi-lo.
    3) Sobre são Benedito ter sido uma invenção, eu não concordei com isso! Mesmo assim, indiquei a interpretação heterodoxa, caso alguém se interessasse em avaliá-la.
    4) Nem tudo que contradiz o que a gente acredita, mesmo que nossa crença e os princípios de investigação que nos conduziram a ela sejam sinceros, precisa ser cretinismo. O cara pode ter chegado naquela conclusão avaliando seriamente as evidências disponíveis. Não fui em quem fez a pesquisa, não averiguei as fontes utilizadas nem fiz análise da crítica que ele empenhou sobre elas. Ou seja, não sou capaz de julgar assim tão rapidamente sobre cretinismo ou não do autor. Recomendo prudência.
    5) "Quem quiser saber, pesquise". É verdade. Desculpe a franqueza, mas as pessoas necessitam às vezes de orientação. Por exemplo você: não sabia do Campo da Pólvora, referido na minha contra-nota 2. Não-saber é normal. Estranho seria alguém saber tudo.
    6) Você já leu o Clóvis Moura? Ou afirmou isso por ele contradizer uma crença sua?
    7) A teoria sobre a Lei-do-mais-forte com fundamentação biológica surgiu, sem dúvida nenhuma, no século XIX. Você pode ler a maior referência no assunto, o Francis Galton. Se preferir, opte pelo Francis Crick ou James Waton, geneticistas do maior quilate.
    8) Eu concordo com essa nota. Farei uma mínima observação: o "lado econômico" não dá conta de explicar tudo. Se a escravidão colonial pudesse ser explicada tão-só pelo lado econômico, então teríamos que ter brancos escravos também, não é verdade?
    9) A minha explicação historiográfica sobre porque Portugal ou o Brasil permaneceram impérios em detrimento aos seus vizinhos segue outra argumentação. Vou dispensá-la. Não está de maneira nenhuma no foco.
    10) Aqui eu admito que é a sua praia, e não minha. Realmente não sou nenhum especialista em Direito. Mas os negros não tinham os mesmo direitos dos brancos, afinal. Tinham?
    11) Bem, li tal informação, sobre o primeiro jogador brasileiro a jogar na Seleção de futebol, do Nicolau Sevcenko. Tinha muito negro jogando nos anos 20, de fato. Mas jogavam futebol popular, no meio de rua ou em times pequenos. Os grandes clubes, por exemplo, não tinham nenhum jogador de cor. Em 1918, aliás, a Seleção jogou contra a seleção do Uruguai. Gradin, único jogador negro em campo, marcou pela seleção uruguai. O que os historiadores afirmam é que os torcedores (a maioria negros) da seleção brasileira aplaudiram o gol que sofreram!

    Visitarei seu blog!

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  20. Eu gostaria de fazer uma contra-nota geral: eu não pretendo saber todas as coisas. Com muito cuidado, muito estudo e dedicação, é que tento afirmar qualquer uma das minhas alegações. Sequer digo que elas são "verdade". São impressões que obtive, vendo e revendo fontes históricas e livros de historiadores sobre as fontes históricas às quais nunca tive acesso. Sobretudo, sou muito novo (24 anos) e tenho certamente muita coisa ainda por descobrir. Pretendo ser sempre claro e objetivo. Às vezes, admito, devo ser até incisivo demais. Porque procuro que meu interlocutor seja o máximo coerente. Mas discuto com profunda humildade. A impressão que tive é que você visitou o meu blog (seja bem vindo!) e me acusou de mentiroso, irresponsável ou de haver distorcido os fatos. Perdoe-me a franqueza, mas seja mais delicado.

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  21. Juliano,
    1) Claro que a conclusão não é falsa. O mecanicismo aplicava-se a tadas as coisas e a todas as pessoas, e não apenas aos escravos.
    2) Horror! Eu pensava que os bahianos fossem muito menos cruéis do que os penambucanos. Vejo que me enganei!
    3) Não se deve concordar com a mentira. Divulgá-la em nome de "heterodoxias" é acumpliciar-se com ela. Que tal em nome da heteredoxia darmos circulação à tese absurda que nega o holocausto e dizermos que o assunto precisa ser "melhor estudado"?
    4) Mesma coisa.
    5) Tem razão, mas não tenho obrigação de citar todos os santos negros. Os que citei são suficientes para provar o meu ponto.
    6) Li e não gostei.
    7) A teoria da sobrevivência do mais apto não tem nada a ver com escravidão. Pelo contrário. Se os escravos não sobrevivessem fortes e saudáveis os senhores iriam à falência.
    8) Essa foi demais, Juliano! Antes da substituição do escravismo pelo feudalismo, 99,99% dos escravos europeus eram brancos. Quando a escravidão foi ressuscitada na América, ela já não existia na Europa e não era possível se comprar escravos lá. Por isso os mercadores foram comprá-los no lugar onde existiam em abundância e eram vendidos aos magotes pelos reis locais: a África! Daí porque os escravos na América eram todos negros. Foi um pena, porque na cabeça das pessoas criou-se a ideia de que negro era sinônimo de escravo, o que não é nem nunca foi verdade.
    9) Você está certo.
    10) Se fossem livres, tinham, conforme demonstrei.
    11) Os grandes clubes eram fechados e os jogadores eram sócios granfinos e portanto amadores. Nos anos 20 a "profissionalização" começou de forma disfarçada e era chamada de "amadorismo marrom" porque os profissionais fantasiados de "amadores" geralmente eram mulatos pobres que não podiam jogar de graça. Os clubes os faziam "sócios esportivos", categoria hipócrita e cretina que dava ao "sócio" o direito de entrar nas dependências esportivas, mas não nas dependências sociais do clube. Quanto ao historiador que disse que a maioria de torcedores no jogo Brasil x Urugai era negra duvido dele; a entrada era cara e poucos negros tinham condições de pagá-la! De qualquer forma foi um jogo amistoso e não uma Copa, como foi o caso da Roca, a primeira copa vencida pelo Brasil. No que se refere à torcida aplaudindo gol do adversário, isto era comum na época, sobretudo quando o gol era bonito e não "fuleiro", como se dizia. Afinal, futebol era um jogo de cavalheiros e não o mata-mata que é agora.
    Finalmente, devo dizer que fui indelicado mesmo, pois não admito absurdos: fascismo, nazismo, comunismo, racismo, imperialismo e por aí vai. Nesses casos, a "heterodoxia" só faz ajudar o mal, fazendo com que as pessoas creiam que ele é "respeitável" e por isso merece ser "considerado"!!! De qualquer forma acredite-me: tentei combater o pecado e não o pecador!
    Abraços

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  22. Pois está aí: eu não acredito em pecado!

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  24. Esse Virgílio é um legítimo ignorante. "Ai. Finalmente, devo dizer que fui indelicado mesmo, pois não admito absurdos: fascismo, nazismo, comunismo, racismo, imperialismo e por aí vai." E depois "tentei combater o pecado e não o pecador". Só eu que senti pena desse miserável? O senhor é um fraco Sr.Campos. Se o sr.tivesse nascido há 200 anos anos teria tido o seu escravinho na coleira. E teria se orgulhado por poder ter pago por ele, pois negros eram tratados como um objeto. E se ela fosse negra e bonita você teria batido nela até que ela fosse para cama com você. E mesmo que tivesse nascido não faria diferença.Sabe porque Sr. Campos? Porque o senhor é um fraco e não estava aqui para proteger ninguém contra o racismo, o fascismo ou mesmo da igreja quando ela empalava quem a contrariasse. Então me diga porque você se joga a lutar com uma aparente firmeza no combate a fantasmas do passado? Não responda, por favor, eu mesmo digo. Por que pessoas como você passam "do jeito que dá" nesse mundo. Os problemas que nós temos HOJE, as pessoas que sofrem HOJE não tem nenhuma ajuda de você. O que você faz por elas? Ou será que...Ah, me desculpe, você dá esmolinha pro mendigo? Ahhhhh e doa pro criança esperança quando o Didi pede. Ahhhhhh. Erro meu que o subestimei, perdão. Os tempos são outros, os problemas são outros Ficar brabinho não muda o passado, não adianta. O que um iludido, que prefere ignorar por vontade própria o passado pode fazer por alguém? Em vez de aprender com os erros que tal todos nós fazermos como o Sr. Campos, que quer viver nesse mundo perfeito de fantasia? Muitos querem, monte um clube e queime uma Alexandria. Entenda que você é filho de um tempo de calmaria, onde entrar na internet e contrariar um passado doloroso parece ter algum fundamento, mas não tem. Pessoas como você são como monges gordos que adorariam reescrever o passado trancados em suas torres seguras, longe do mundo de verdade: da dor, da hipocrisia, do ódio que também é uma das facetas da natureza humana. "Oh a Igreja sempre foi justa, sempre fez o bem sem importar a quem". "Óh os negros todos tinham alma, e faziam longos banquetes em frondosas mesas juntos com os índios e os sacerdotes". Espero resposta. Como o meu nome sugere "me alisa" que eu cresço mais.

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  26. Uma mentira contada várias vezes acaba se tornando uma verdade

    http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2013/02/19/a-igreja-nao-acreditava-que-o-escravo-tivesse-alma/

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  27. A igreja usa o nome de Cristo para a manutenção da sua boa vida e arrecadar dinheiro dos seus fieis (lembrem-se da passagem em que Cristo se ira com o comércio no templo) - as religiões não dão a mínima para isto, pregam uma coisa e fazem outra completamente diferente. A católica em especial, como as demais de hoje, sempre esteve ligada com o poder e o dinheiro. Para tal justificavam a escravidão, a inquisição, foram omissos, e até certo ponto coniventes com os nazistas, etc. Presa aos dogmas seculares, concebidos para a manutenção do poder e do status quo, esquece da riqueza da pregação de Jesus do Evangelho, e sempre se utilizou de vítimas perfeitas, que nos dias de hoje são os homosexuais, ademais daqueles que não pertencem às suas próprias igrejas, as mesmas semeam a discórdia e fomentam o ódio, verdadeiros operários do demônio. Incrível, porque o que não falta é padre guei. Penso que daqui uns duzentos anos, isto pem se chegarmos até lá, se por um acaso a humanidade conseguir romper com todos os preconceitos, se olharemos para a questão do homosexual como olhamos para a questão do negro hoje, ou seja, sem sentido, cruel e tendenciosa.

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  28. Mentiras e mentiras,devia estudar mais e parar de escrever tanta asneira

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