01 abril 2011

Os cem de Ceni

Essa semana começou muito bem para mim. Finalmente arrumei um apartamento, terminei um texto longo, conheci umas pessoas legais e ainda por cima, teve aquele jogo de domingo.

Pra quem não está muito ligado em futebol (o que eu não creio muito, mas também não duvido), neste domingo, o goleiro e capitão do São Paulo Futebol Clube, Rogério Ceni, fez o centésimo gol de sua carreira. Isso tudo se torna ainda mais interessante por ter sido contra o rival Corinthians, que não perdia para o São Paulo faz alguns anos, tendo resistido mesmo à vitoriosa equipe de 2007, que atropelou quase todos os times do campeonato brasileiro. O time veio a rebaixar em tal campeonato. 

Mas os corintianos são um bando de loucos. E se vibravam com o time rebaixado (os torcedores, seja qual for o time, são raparigas velhas e apaixonadas: insultam seu cafajeste o tempo inteiro, mas não aceita que ninguém mais o faça em sua frente), se têm coragem de expulsar de sua casa grandes jogadores como Tévez e Roberto Carlos, por causa de derrotas da equipe, não iriam aceitar essa ofensa vinda do adversário, quiçá inimigo. 

Primeiro alegaram ser o gol número 98, como se isso mudasse o fato de terem perdido a partida, de ver quebrado o tabu, e de deixar passar a possível liderança do campeonato. Na verdade, o clássico é equilibrado, o São Paulo também teve uns anos sem perder para o Corinthians, na mesma década, tendo-lhe desferido duas goleadas de 5 a 1. 

Nesse quesito, são paulinos e corintianos são como Brasil e Itália. Ambos tiveram seus momentos de glória, e o desejo de retaliação não é tão acentuado como poderia ser, se só houvesse vitórias de um lado. Dói mais um tabu como o da seleção contra a França, que ganhou mais uma vez esses dias. Apenas imaginamos uma maneira de descontar toda essa humilhação. E a cada nova tentativa, nova derrota, sendo nossa única esperança torcer pelos outros, para que ela sempre repita os fracassos de 2002 e do ano passado. 

Por outro lado, o carrasco tenta nos consolar. Júnior (que já participou de uma dessas derrotas) pergunta: você não sente remorsos por fazer chorar tantos milhões de pessoas? Zidane responde: “Mas vocês já pensaram em quantas pessoas sofreram, em quantas VOCÊS fizeram chorar?” O torcedor brasileiro, acostumado a tantas vitórias, ainda não tem maturidade para perceber que um dos lados sai perdedor. 

A verdade é que competimos em tudo, e cada derrotado compensa de alguma maneira. Que diria um americano após a derrota em 1994? “Mas ganhamos no feminino!”, e saem consolados. Às vezes apelam: domingo um escocês jogou uma banana, como que dizendo “ao menos nós somos civilizados, por sermos europeus”; imagine um chinês, em 2002, o que diria: “ao menos somos uma potência mundial”; um venezuelano em qualquer época: “nós temos a Miss Universo”; alguém, digamos, da Guatemala, que nunca ganhou nada, poderia alegar: “mas nós temos um Nobel e vocês não!”.

Um argentino, após tantas derrotas, diria: “a década foi fraca, mas nós levamos um Oscar...” Mas, de um hermano, brasileiro não aceita tiração de onda, e finge que nunca quis um: “e que me importa um Oscar?” Mas o cabrón já estava esperando: “...e uma medalha de ouro!”. Aí atinge de verdade, pois não temos como responder a isso. Jamais ganhamos a medalha de ouro no futebol, e indiscretamente a queremos. 

Mas há uma diferença entre o torcedor da seleção e o de clubes. Se o Brasil quase inteiro assiste futebol na época da copa, essa nação se diminui nos campeonatos internos. Continuam muitos, mas diminuem. Os torcedores de clubes é que são os verdadeiros fanáticos. E eis a diferença básica: ao contrário dos torcedores de seleção, o de clubes compartilha o mesmo espaço que o rival. Trabalham juntos, se divertem juntos, assistem aos jogos juntos, e às vezes até mesmo dividem o mesmo teto. 

Por isso, quando um clube é derrotado por outro qualquer, a preocupação maior do torcedor fanático é em como lidar com a conversa mole dos torcedores adversários. E se derrotado num clássico, é pior: tem que lidar com sua derrota e ao mesmo tempo com a vitória do outro. O inimigo à sua frente: zombando de sua cara. As reações são como quaisquer reações da rapariga velha às adversidades com que depara: a tristeza, o desprezo, a doença, o disfarce, a negação, a acusação, as lembranças das glórias passadas, a difamação e, último dos recursos, a violência.

E de glórias passadas ou presentes, talvez a torcida do Inter é a única que possa se gabar de verdade diante do São Paulo, pois nos tirou duas libertadores. Um corintiano não pode usar um Oscar ou um Nobel. Por isso a reação: negação. A tática não é ruim. Cem é um número exuberante e emblemático, enquanto 98 é um número qualquer. Ninguém comemora o trezentos e vinte e cinco ou o setecentos e quarenta e três como comemora um cem. Apesar de serem números maiores, não são tão legais. E a autoridade maior, a FIFA, confirmou: é cem! O que fazer então, bater em Josef Blatter? Não duvido alguém ter cogitado. 

Mas então, ao ver a celebração são-paulina, recebo comentários despeitados de alguns corintianos: “comemora-se os cem de Ceni apenas por ser um goleiro artilheiro, mas ele está abaixo de grandes cobradores como Zico e Marcelinho, e nem fez gols em copas”. Há dois enganos: enquanto o Carioca fez 58 gols de falta, Ceni fez 56. Não é um número tão difícil de ser superado. Ainda por cima, Rogério só bate faltas desde 1997, enquanto Marcelinho tem quase uma década a mais de carreira como titular (não encontrei informações de seu primeiro gol de falta, mas sei que foi antes de Ceni). E comparar com Zico é covardia. Quem mais, no Brasil, em qualquer posição, bateu faltas como ele? 

Da mesma maneira, compará-lo a Chilavert, apenas por este ser outro goleiro-artilheiro, ou querer que Ceni tivesse feito gols pela seleção, não faz juz. Como ele poderia fazer, se nunca cobrou sequer uma falta por ela? Ainda assim, Rogério Ceni, como cobrador, está no patamar de outros bons cobradores de falta brasileiros de sua geração, como Ronaldinho Gaucho, Juninho Pernambucano ou Roberto Carlos, e as estatísticas estão aí para provar.

A questão é que existem gols e gols. Um gol sozinho como o de Gabiru pelo Inter ou o de Mineiro pelo São Paulo tem mais peso que pelo menos uns 700 gols desesperados de Túlio Maravilha, por clubes sem expressão mundo afora. Claro que chama a atenção o fato de um goleiro ter feito tantos gols. E é aí onde está a importância de Ceni. Não é só pelos cem, por liderar a equipe nos maiores títulos possíveis, ou por ser considerado o melhor jogador de dois brasileiros, uma libertadores e um mundial, mas pelo conjunto de tudo isso, que ele entra para o panteão romântico do futebol, ao lado de Telê Santana, o grande Torino de 49, Brian Clough, Frantisec Planicka, Garrincha, Rinus Michels, Sócrates, Forlán, entre muitos outros nomes. 

Como a rapariga velha e apaixonada que sofre quando o cafajeste vai embora de repente – e pensa em matar ou morrer, e cai no álcool, e arranca os cabelos, e grita e faz escândalo, e no final das contas, se acalma, pois há coisas mais importantes na vida –, já é tempo de o torcedor, seja de clube ou seleção, ver a derrota como algo inevitável para um dos lados, não só no futebol, mas em todos os momentos e apostas. Já é tempo de simplesmente aturarem a gozação, pois todos perdem, apesar de uns perderem mais que os outros. 

Paulo Raviere.

2 comentários:

  1. Engraçado. O Confraria de Tolos poucas vezes foi tão bem frequentado como agora. Temos um recorde de visitas nessa última semana. E no entanto parece que os leitores apanharam vergonhas ou preguiça de nos deixar comentários. Comentem, leitores!

    Mesmo se vocês forem corintianos! Haha

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  2. porra... entao comento... só pq sou corintxiano.. mas vou revelar... nem li o texto

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