23 abril 2010

O Torcedor

Tinha os olhos calmos, a pele morena queimada e um sorriso calado e franco. De perto parecia baixo. De longe parecia mais alto um pouco e ninguém sabia pelo seu caminhado que não era ele que ia chegando, mas sempre chegava. As moscas brindavam mais um copo e meio de cerveja quente. O calor gotejava suor pela testa de quem assistia e os olhos valsavam, algumas bocas se calavam a cada chute, olhos fechavam, narinas se abriam, dentes se mordiam e mordiam copos descartáveis, unhas, canetas e esperanças. Fazer logo um gol era necessário. Todos, mesmo aflitos, sabiam que quem determinava o final de todo jogo era sempre ele, o gol.



Sua fama começou ainda miúdo. O baba da roça, era sempre o Torcedor que dizia quem iria ganhar, o baba dos maçons, a pelada da molecada, o jogo do bairro, o intermunicipal, estadual, o nacional e pra fechar, claro, o mundial. Dizem que foi Deus que conversou com ele e deixou esse negócio de futebol pra ele ir resolvendo. Os santos, os orixás, as colônias espirituais não tinha muito espírito esportivo. Deixa pros humanos, então. E o Torcedor foi escolhido. É o que dizem. Ele não dava entrevistas, não apostava em bolões, loterias e nem dizia de si mesmo nada daquilo que diziam que ele era. Com paciência de Jó, dizia apenas que gostava de assistir um bom jogo, e mesmo que fosse ruim, sempre via um lado bom.


O Torcedor era uma enciclopédia futebolística. Datas, gols, prêmios, jogadores, escalações, seleções, contexto histórico, tipos de dribles, tipos de falta, nomenclaturas, tudo era expiração e inspiração pra ele. Em conversa, me divertia e até entendi o que era o tal do impedimento. Saber de onde ele veio, se era da rua dos Cachorros ou tinha filhas bonitas, se vendia geladinho ou comprava cigarro barato na venda da esquina, se ia todos começo de mês no banco do Brasil tirar sua pensão, se jogava dominó na praça 6 de julho, se comia pão dormido com mortadela e suco de morango, gergelim, rapadura, não se sabe. Todos afirmavam alguma coisa sobre ele, mas nem o nome se sabia ao certo. Era o Torcedor, e bastava pra ele. Uma coisa tinha a certeza, o resultado do jogo ele acertava. Sempre.
- Pênaltis. Vai pros pênaltis.
- Oh Torcedor, diz não. Deixa a gente sofrer mais um tiquinho. Maria pedia com o olhar de compaixão.
- Daí perto do fim do segundo tempo o senhor diz logo quem ganha e eu vou terminar meus trecos e o resto do povo comemora ou chora. Riu e voltou sua atenção pra televisão.
- Tá bom Maria. Deixa eu ir na cozinha pegar um pouquinho de café, se você me permitir?


Com o olhar e um gesto de mão deu passagem ao senhor franzino. Caminhava com dificuldade, há alguns metros resmungou baixinho.
- Nem ia falar que é o Roberto que vai perder o derradeiro.


Poucos ouviram, poucos entenderam e muitos assistiam. Os noventa minutos terminavam, a conversa afrouxava mais os ânimos. O fim daquele jogo pra ele pouco importava. O bom mesmo era saber se Maria tinha acertado pelo menos uma vez que fosse o tempero do café. E se sua alegria em saborear um bom café, como os de antigamente, fosse saciada, daí quem sabe a vitória seria pro lado certo. O café iria responder.
Ele sempre dizia que a resposta de quase tudo vinha de tudo que era pequeno. Assim como ele. Deixar as coisas sem resposta era outro dom quase compatível com o que afirmavam sobre ele. Uma frase solta era sempre deixada entre um chute e outro, o que muitas vezes mudava o rumo das apostas daqueles que, atentos, mais se ligavam no que ele poderia dizer do que na partida em si. Assistir uma final de campeonato brasileiro era digno de bons jogadores de xadrez. O xeque mate era sempre ele que dizia. Era divertido, pra ele.


Certa vez, indagou uma vizinha. “Povo sem o que fazer, dão crédito pra cada maluco. Um velho que num tem mais o que fazer acerta umas besteiras e dizem que é coisa divina, se ele é bom mesmo, por que não ta rico. Outros da rua lá de baixo, dizem que tinha um povo num sei de onde até estudando ele, fazendo tese de mestrado e analisando as possibilidades dele ser um gênio da matemática, coletando dados e acertos pra apresentar pra esse povo que mexe com essas maluquices que ninguém entende. E mais adiante, tinha até uns malucos fundando uma religião em seu nome, até nome e comunidade já tinha, Igreja Messiânica do Divino Torcedor, rezavam, cantavam um hino, beijavam uma bola e discutiam futebol. Tem seguidor até no exterior. O que esse povo num faz por dinheiro. É cada uma que eu vejo.” Como dizia minha avó. É de fuxico que se faz a fama de Francisco. E essa vizinha com certeza devia está com raiva por um resultado dado por ele. Seu time quase sempre perdia.


Procurou pacientemente a garrafa térmica com o adesivo do flamengo. Quase sempre se esquecia que era lá que Maria deixava o café. Com o brasão do Bahia era chá. Nunca gostou de chá. Achou o café e sentou. A menor xícara. Seu sorriso se abria calmamente. Sua frágil saúde não permitia, mas açúcar sempre lhe agradou bem mais. Adoçante tem gosto de remédio. Fitou algumas fotos na geladeira. Lembrou de tudo que já tinha feito e os destemperos que a vida já lhe proporcionou. Maria era uma boa mulher. Um apoio pra quem realmente precisa. Ele precisava e a agradecia. Lembrou-se de como era difícil sua época de jogador. Os poucos acessórios, o sofrimento, o preconceito, a fama repentina, as belas mulheres, o álcool, as drogas, um grande amor, o fim da carreira, o joelho arruinado, o ultimo gol feito pelo seu pé direito, o fim da carreira, o esquecimento de todos, os holofotes se quebrando e os estilhaços em seu rosto agonizando. O esquecimento total, seu nome esquecido, enterrado, apagado da memória de uma nação inteira e o seu esconderijo dentro de si mesmo e aquela cidade que o tinha como santo e o pusera de novo frente a frente com seus demônios interiores. Uma pequena lágrima escrevia entre as rugas e a sua velhice um som de agradecimento, pois o café realmente estava no ponto e sentiu um leve torpor.


Saiu quieto do mundo. Os holofotes voltados pra um nação não apagaram por completo sua luz. Assim que o verde-amarelo ia se apagando com a chuva, a peregrinação ia se estabelecendo em direção a casa de Maria. A mídia sensacionalizava, cientistas pelo mundo inteiro explicavam, repudiavam e estudavam esse novo fenômeno tão ímpar. Torcedores prometiam, ajoelhavam-se, em uníssono clamavam seu nome nos estádios a fora. Livros se multiplicavam com suas histórias. Como, por tanto tempo teriam esquecido um jogador tão bom assim? Porque ele não tinha participado de alguma copa? Porque a seleção não tinha sido campeã em todas as copas já que ele tinha esse dom que diziam? Eram questões cada vez mais debatidas, mistificadas e não respondidas. É necessário canonizá-lo, o país do futebol precisa de um santo como ele, diziam os fieis em seu nome.


Um dia alguém ouviu dizer que ele falou: Deixa o povo ficar feliz que eu vôo e mostro minha alma e o que sou. O povo daquela rua o agradecia entre os olhares e as conversas sobre sua bondade, paciência e compaixão. O mesmo sorriso calado, porém olhos cerrados. Tinham achado no seu bolso algumas anotações, que foram guardadas a sete chaves por Maria e recortes de jornal, em sua carteira, de quando era jogador de times famosos. Soube-se que ele tinha doado tudo que tinha e sumido. Teria passado por inúmeras cidades, não tinha deixado filhos e não se sabia da sua família. Uma parte dos poucos bens doados estavam em nome de Maria assim como as tais anotações, que a vizinha disse ser os resultados dos próximos jogos e Maria se nega a dizer o que é.


Julho de 1994



Koka

3 comentários:

  1. Massa. Muito bom, cara. Impressionante história e ótima escrita. Parabéns!

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  2. O Cleriton parece escrever bem também.
    :)

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  3. com certeza... é meu boder do curso de jornalismo.. :D

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